Eu gosto de escrever, mas nem sempre estou inspirado ou com disposição para simplesmente parar, sentar-me de frente para o computador, abrir uma página em branco do editor de texto e começar a debitar, como é o caso deste preciso momento.

Vou escrever sobre quê?

Sobre como foi o meu dia?
Sobre o mais recente buzz nas redes sociais?
Sobre amor?
Sobre fazer o amor?
Sobre como é bonito viver?
Sobre como será estar morto?
Sobre as minhas frustrações e inseguranças?
Sobre o que tenho de bom na vida?
Sobre o que ainda não fiz e quero fazer?
Sobre o que fiz e não devia ter feito?
Sobre o degelo no Ártico?
Sobre a iminência de mais um conflito global?
Sobre o Universo?
Sobre arte?
Sobre música?
Sobre poesia?
Sobre filosofia?
Sobre quê?

Foda-se! Ainda há pouco, quando conduzia em direção a casa, me ocorreram dois ou três temas interessantes para divagar, e agora que me encontro confortavelmente sentado no sofá junto ao aconchego da lareira, fico por tempo indefinido em hipnose, com as mãos suspensas sobre o teclado, como se fosse um concorrente de um qualquer programa de quiz da televisão, quando está prestes a carregar no botão vermelho para responder à resposta que o poderá fazer milionário.

Nem sempre me é fácil escrever e fazer sentido.

Às vezes, quando me predisponho a escrever mas me falta a organização mental necessária, escrevo poemas. Merdas que nem eu entendo muito bem mas que talvez nem me interesse entender.

Talvez o propósito da poesia seja apenas permitir-mo-nos desfrutar do prazer que nos invade quando regurgitamos palavras e frases sem refletir.

Continuarei este parágrafo, dando como exemplo o poema que vou escrever abaixo pela primeira vez, porque o vou inventar agora (vou mesmo), tendo em conta o que referi acima e de forma a este texto fazer sentido, já que me propus a começá-lo:

Papel.
O pedaço de tela onde pinto palavras…
– Ignóbil, eu sei.
Destruo horizontes assim, com um só sopro.
Não me sinto melhor por isso.
Também não me sinto pior.
Neutro.
É recorrente o uso dos mesmos chavões, não encontro mais.
– Questões?
Devoro-as com um sorriso maléfico, quiçá inocente porque não passam de interrogativas, as respostas, vejo-as pouco.
.- ..Ah!
Que sentido faz o que digo, murmura o mais pequeninho.
– Silêncio!
Neste momento quem fala é o todo poderoso, o maior que aqui existe!
Não ouses interromper o seu discurso, não desperdices nem uma sinapse!
– A mim que me importa.
Ouço, vejo, como, escrevo, faço o que bem me apetecer.
És insignificante perante a minha vontade.
– Podes bem pegar nesse papel que pensas esta a pintar qual tela, e queimá-lo!
Aproveita, e faz das suas cinzas, a tua Fénix.

E pronto. É este o resultado do meu destravamento mental-poético. Comecei o suposto poema com a palavra “papel”, desconfio que, devido ao facto da página word onde escrevo ser branca e me remeter visualmente para uma folha de papel,. Acabo com referência a uma Fénix talvez porque me ocorreu queimar o papel, por falta de lógica no que estava a escrever.

Reitero o que disse anteriormente:

Talvez o propósito da poesia seja apenas permitir-mo-nos desfrutar do prazer que nos invade quando regurgitamos palavras e frases sem refletir.

E assim, ainda meio atordoado com a lógica da criação, encontro a resposta à minha questão inicial:

Vou escrever sobre quê?

Nada em particular.

Vou escrever, apenas.

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Simão Mendes

Terráqueo abstracto que todos os dias procura descobrir-se e a quem o riso é indispensável. Vive despreocupadamente. Viciado em pizza, aprecia o café a 3/4 e sonha ir ao espaço.

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