Dia 2 – 20 de Agosto

O dia de concertos começou cedo para o Irreversível. Como humano que sou, tive de recorrer ao supermercado mais concorrido da vila e, no retorno, ao passar pelo Museu Municipal, eis que estava prestes a começar uma music session “surpresa”, como é apanágio no Vodafone Paredes de Coura (há convites aleatórios a festivaleiros e autocarros que fazem o transporte a diversos locais do concelho).

Não ir espreitar não foi sequer uma opção e como a refrigeração de comidas não é uma realidade nesta semana (a de bebidas é em pleno rio), nada havia a perder. Após alguns minutos de soundcheck, deu para perceber que era Steve Gunn que ia actuar, sendo que Peixe (que esteve presente no Jazz na Relva no dia seguinte) já o tinha feito previamente. Foi um concerto (acústico e) intimista num local intimista. Absolutamente, um bom início de tarde.

foto: mb.web.sapo.io

Steve Gunn – foto: mb.web.sapo.io

Nos concertos propriamente ditos, foi um dia em que a Irreversível não caprichou. Sem muito interesse em Hinds, White Fence e Iceage (já tinham passado pelo festival em 2013); sobrava Pond no palco secundário. No entanto, uns minutos de atraso foram suficientes para dar de caras com aquela que foi certamente a maior enchente de sempre deste palco, e isto ainda de dia. Este projecto com muito dos membros de Tame Impala (os cabeças de cartaz deste dia) foi um excelente exemplo do número de espectadores que Paredes de Coura trouxe este ano. Ora, se ver de bastante longe um concerto no palco principal é exequível; o mesmo não se pode dizer do secundário; pelo que, pessoalmente, é mais uma vez que perco estes rapazes (depois de tal também ter acontecido no Primavera Sound de 2014).

Falando então do palco principal, tivemos neste dia, dois projectos nacionais de qualidade indiscutível; que deram concertos cheios de energia e dedicação. Falo de peixe:avião e The Legendary Tigerman. Cada um à sua medida e, certamente, ganhando novos fãs.

A actuação de Steve Gunn, como já tinha sido vista, embora num contexto diferente, foi aproveitada como hora de jantar; ao passo que Father John Misty levou muito público à loucura (especialmente, feminino). Individualmente, creio ter sido uma performance consistente, mas com uma sonoridade onde parece faltar alguma substância. Mas música fácil sempre foi o caminho mais directo ao sucesso…

Tame Impala - foto: Cláudio Valério – Irreversível

Tame Impala – foto: Cláudio Valério – Irreversível

Restava então Tame Impala, provavelmente a banda que, por si só, levou mais gente a esta edição do festival. Goste-se ou não se goste; pouca gente é indiferente a este projecto de pop-rock psicadélico que tem estado na ribalta desde o seu longa-duração de estreia, Innerspeaker, de 2010. Seguiu-se o Lonerism em 2012 e, este ano, Kevin Parker e companhia traziam novo trabalho, Currents. Não tão adorado como trabalhos anteriores (um clássico, portanto), acabou por funcionar bastante bem ao vivo (os visuais ajudaram imenso) e, muitos festivaleiros que estavam bastante reticentes quanto à banda, acabaram por ficar convencidos.

O dia acabou com mais um after-hours muito intenso, primeiro com Mirror People, projecto de Rui Maia (X-Wife) e depois com o actor, comediante e DJ Nuno Lopes a fazer a festa até depois das seis da manhã perante um público que não arredou pé e o obrigou mesmo a fazer “encore”. Foi festa brava, foi festa portuguesa (e não só). Seguia-se agora o terceiro dia.

Dia 3 – 21 de Agosto

Foi o já referido Peixe a abrir as hostilidades neste dia no Palco Jazz na Relva, instalado em plena Praia Fluvial do Taboão e capaz de atrair muito mais fãs que alguns concertos dentro do recinto. É o local mais frequentado durante todo o dia, pelo que se adequa muito bem aqui este palco que, quando não debita música, debita poesia… muita dela bastante marota.

Foi um dia em que o palco secundário voltou a ser ignorado (estava este ano muito menos cativante que em edições anteriores) com Nicole Eitner and the Citizens, Grupo de Expertos Solynieve, Waxahatchee e Merchandise a merecerem pouco mais que uns minutos de atenção… mas, honestamente, a não cativarem a algo mais. O palco secundário seria, contudo, bem aproveitado no dia seguinte…

No principal, X-Wife também foi ignorado em virtude da facilidade com que se consegue ver estes rapazes noutras instâncias. Allah-Las apresentaram um espetáculo morno, como morna é a sua música. Não têm marca própria e o seu garage pop-rock soa a milhentas outras bandas. Na verdade, surpreende todo o hype que conseguiram ter com os seus dois álbuns.

Estava então tudo a postos para música a sério com Mark Lanegan Band. Este experiente americano que, para além dos seus Screaming Trees (percursores do grunge), colaborou ao longo da sua carreira com nomes como Kurt Cobain e Isobel Campbell (Belle & Sebastian) e fez parte dos Queens of the Stone Age durante mais de uma década; tem-se virado mais para o folk e os blues recentemente. Não deixou, contudo, de explanar toda a sua essência multi-géneros e de dedicação pura à música neste concerto; tendo ainda feito cover a Joy Division com versão de “Atmosphere”.

Charles Bradley  - foto: Cláudio Valério – Irreversível

Charles Bradley – foto: Cláudio Valério – Irreversível

Seguiu-se Charles Bradley e aquela que foi, indiscutivelmente, a melhor performance de todo o festival. Este senhor que foi, durante demasiado tempo da sua vida, apenas mais um impersonator de James Brown (embora, sem dúvida, um dos melhores); tem muitas influências deste mestre, bem como de Otis Reading.
Tem, no entanto, algo muito superior a estes. A humildade. O constante agradecimento honesto ao público e um concerto que terminou com este senhor em lágrimas (excelente recepção do público, embora difícil fosse ficar indiferente a quem deu tanto em palco) e a cumprimentar toda a linha da frente de público.
Charles Bradley tem uma voz à qual é impossível ficar indiferente e é maravilhosamente apoiado pela sua banda, His Extraordinaries. Extraordinários, certamente com tudo o que se pode pedir executado na perfeição: sopro, percussão, cordas e teclas.
Charles pôs-nos a dançar, pôs-nos a admirar baladas, pôs-nos cheios no coração. Volta, rápido, Charles! Não haverá agora qualquer The National a tirar-te a merecida ribalta (estas duas actuações sobrepuseram-se no Primavera Sound de 2014)

No palco principal, The War on Drugs encerraram a noite de concertos. Vindos de um álbum que foi considerado dos melhores de 2014, Lost In The Dream; e a voltar cá depois de presença no Alive de 2014, deram um concerto competente e onde provaram que são músicas de inegável qualidade. Contudo, pareceu faltar alguma energia nesta performance. Provavelmente, pode ter sido apenas fruto de terem actuado depois de um concerto tão único e explosivo como foi o de Charles Bradley. Importa rever a calendarização de concertos, organização! Um indie-rock fofinho depois de um soul/funk arrebatador não faz qualquer sentido…

Tudo voltou a acabar com mais um after-hours. Primeiro, Tanlines e, depois, Richard Fearless a a exponenciar ainda mais a tendência tech-house que se tinha verificado nas duas noites anteriores. Música para partir chão e que a maioria dos noctívagos desfruta fortemente (sou um deles, admito).

Dia 4 – 22 de Julho

Chegava então o dia final do festival, onde as energias para alguém que tinha chegado ao Minho a 13 de Agosto, não eram as maiores. Felizmente, só houve duas actuações que exigiram esvaziar ainda mais estas reservas.

Depois de Holy Nothing, Banda do Mar e Natalie Prass terem actuado quando ainda se ganhava coragem para enfrentar uma saída de casa (neste casa, tenda) em dia de chuva (de novo), Woods e Temples foram capazes, mas sem prender demasiado a atenção (parecia que estes acordes já tinham sido ouvido algures ao longo do festival).

Pelo meio, Sylvan Esso, no palco secundário, foi uma muito agradável surpresa. A audição da sua discografia não fazia prever que funcionasse tão bem ao vivo. Este duo combina a batida carregada de bass de Nick Sanborn com os vocais (que à primeira vista não encaixam, mas acabam por nos convencer) hipnotizar de Amelia Meath. A rever no futuro, certamente.

Fuzz - foto: Cláudio Valério – Irreversível

Fuzz – foto: Cláudio Valério – Irreversível

Chegava então a hora de um dos momentos mais altos do festival, a actuação de Fuzz no palco secundário. Trio que tem o conhecido Ty Segall nas suas fileiras, um roqueiro que tem mantido o rock vivo e que já tinha passado com a sua banda no Primavera do ano passado e a solo em Outubro no Lux Frágil (a cargo da Galeria Zé dos Bois). Ty é aqui baterista, sendo acompanhado por Charlie Moonheart na guitarra e Roland Cosio no baixo.
O concerto foi o que estava prometido: uma overdose de rock and roll que tornou todo o palco secundário num autêntico arraial de porrada (amigável, evidentemente) com as mosh, crowdsurfings e… até mesmo wall of deaths a acontecerem umas atrás das outras ao longo de uma hora frenética. Superou a loucura que foi Thee Oh Sees em 2014, igualmente neste palco.
Falta um pouco mais de música assim no festival. É o que (muito d)o povo gosta!

Lykke Li actuava no palco principal quando Ty e companhia se despediram. Foi uma boa altura para ir abastecer o estômago de comida de plástico e álcool variado às roulottes à entrada do recinto e de preço mais convidativo, ouvindo a doce voz da sueca ao longe que, infelizmente, aparentou só ter uma reação forte do público no seu conhecido tema I Follow (Rivers). Culpa própria ou culpa de um público algo bandwagoner, fica a questão… Os roqueiros estavam a descansar de Fuzz, isso é certo 

Descanso não houve, contudo, na performance que fechou o palco principal. Ao contrário da noite anterior, os Ratatat foram bem posicionados como última actuação. Mesmo sendo Lykke Li mais conhecida, a ordem inversa resultaria num concerto de Lykke ainda mais sem chama pela quebra de energia, como tinha acontecido com The War on Drugs na noite anterior.
Foi então mais um duo com forte vertente electrónica e que combina isso muito bem com o que fazem, instrumentalmente, ao vivo, com riffs poderosos e adequados que criam um ambiente de rock dançável, mais um concerto com fortes visuais e uma despedida perfeita desta edição do Paredes de Coura; sendo tudo encerrado com The Soft Moon e Sascha Funke no After-Hours. Nota de destaque para os primeiros e a sua sonoridade envolvente e até psicadélica.

Pond - foto: Cláudio Valério – Irreversível

Pond – foto: Cláudio Valério – Irreversível

 

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Cláudio Valério

Coimbrinha mais novo que o fantasma do Kurt Cobain. Estuda ciência, mas vai passar a estudar letras. Fã nº1 do Lidl.

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