Vira o disco, toca o mesmo…
Cresci a ouvir rádio e a compor as minhas próprias cassetes com um velho gravador que ainda guardo na arrecadação da casa dos meus pais. Naquele tempo, que não foi assim há tanto tempo atrás, a internet ainda era uma miragem para a maioria, para além de estupidamente lenta, e mesmo um leitor de CD’s não era um luxo para todos. Quem tinha canais por cabo podia ver a MTV, no tempo em que a MTV era a MTV e não este lixo de reality shows degradantes em que se tornou. Eu ouvia rádio.podcast-listening
A minha relação com a radiofonia era, portanto, de proximidade e confiança. Várias eram as rádios que ofereciam programas variados e era possível consumir diferentes géneros de música. Hoje tudo é diferente e a esmagadora maioria das rádios, digam lá o que disserem, venderam literalmente o rabiote à indústria. Sim, eu sei que a Antena3 ainda se diferencia um pouco deste panorama. E sim, a Comercial tem um bom painel de animadores matinais. Mas é praticamente tudo o mesmo. Fazendo um zapping pelas diferentes emissoras mainstream, a sensação é a de estar preso num loop de pop cor-de-rosa regurgitado de forma promíscua e vulgar, electrónica gaiteira taylorizada e, no caso português, os abençoados pelas editoras endinheiradas, nem que seja uma daquelas boysbands fatelas que fazem tremer as perninhas das pré-adolescentes deste país. No total é uma playlist com 20 ou 30 músicas que toca a mesma coisa, dia após dia, como se nada mais existisse.
Não digo que não haja ali alguma abertura para contornar este sistema, e os artistas da nova vaga do Fado são um bom exemplo disso. Mau era que tínhamos as Marisas e as Anas Mouras desta vida a dar cartas por essa Europa fora e não havia um espacinho para elas no alinhamento das principais rádios nacionais. Mas a verdade é que a música que hoje nos oferecem mais não é que vira o disco e toca o mesmo. Talvez seja esta a forma de sobreviverem, transformando-se em filiais não oficiais das principais editoras a operar no país. Que existência triste. Para mim deixaram de existir. Resta-me o ocasional programa na Antena3 e as notícias na TSF.


As rádios portuguesas da moda colocaram hoje a playlist em pause para chorar em uníssono a morte de Prince. Tem tanto de comovente como de irónico, assistir a esta homenagem a um grande artista que há muitos anos virou as costas à indústria por parte de rádios transformadas em reprodutoras da vontade dessa mesma indústria. Business as usual.

Rest in peace Purple One.

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João Mendes

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