Como descobri que toda a gente é entendida em direito e política internacional, sinto que devo vomitar também umas linhas de pensamento.

Trump como oportunidade de mudança?

Trump ganhou.
É muito fácil pintar tudo a preto ou branco e considerar ‘The Donald’ como um misógino, racista e xenófobo e Hillary Clinton como a revolucionária que iria tornar a sociedade mais justa e repleta de igualdade para todos. E, embora a primeira parte seja verdade e os próximos tempos possam ser marcados por um clima de maior exclusão com regressões a nível cívico, a segunda não é, de todo, o que iria acontecer.

Construiu-se demasiado uma narrativa de bem contra mal, ou em última instância, do menor mal. Mas é importante olhar para além do básico e do curto prazo.

Como Slavoj Žižek, proeminente filósofo político esloveno disse, “a sociedade actual funciona com uma conduta de regras não escritas de como fazer política e como construir consensos“… que Donald completamente abalou. Consensos, por si só, é quase antítese de democracia. É impossível agradar ao Goldman Sachs e a anticapitalistas em simultâneo… e Hillary bem tentou sorrir a todos em simultâneo.

Foi esta hipocrisia que fez tanta gente preferir uma personagem grotesca, inexperiente (primeiro presidente que não vem de carreirismo político e/ou militar) e tão inculta (provavelmente, o presidente com menor QI de sempre… apenas atrás de George Bush)

Tal como Slavoj, acredito que este acontecimento obrigará as forças políticas a reconstruir-se desde a base (e, quem sabe, será finalmente a oportunidade de diluição do bipartidarismo) e a decidir que rumo dar ao país que, sendo o mais poderoso da actualidade, em última instância será também o rumo do mundo. O politicamente correcto deixou de ser o que as pessoas querem e foi esse o segundo apelo do bilionário dos ‘reality shows’. Muito mais do que as bacocadas que disse e fez para criar um ‘core’ de apoiantes fervorosos. Mas não tentem fazer passar a ideia que os 60 milhões de votantes que ele teve foram homens brancos racistas. Tal como a de que não temos a primeira presidente do sexo feminino – que não pode ser um apelo maior do que a personalidade de quem está por detrás – por uns votos no Ohio, Pensilvânia e Florida. O sistema foi completamente arrasado, esse é um facto inegável!

Tenho então a esperança, talvez demasiado idealista admito, de toda esta reconstrução permitir formular uma nova sociedade, uma mais justa e igualitária. Não no imediato, mas também não em muito muito tempo. Não há políticas de reformulação social a 4 anos e um mandato dificilmente altera a rota de um país. Tal como Obama, que tanto prometeu e que pouco ou nada mudou (também não fez muito por isso e ficou-se quase só pelo ‘status quo’, verdade seja dita), não vejo como Trump pode tornar isto no faroeste que tantos antecipam.

Não acredito que Trump seja um presidente tão vil como quase toda a media projectou durante todos estes meses. Não acredito que faça um muro ou quaisquer deportações em massa. Não acredito que faça mudanças de topo – só mesmo que abre lugar a elas – até porque o Senado tem um poder incalculável.
Basicamente, o seu verdadeiro único poder é a nível militar e não, também não acredito que brinque aos videojogos com os códigos nucleares.
E é fácil ficar como mera nota de rodapé todas as tensões que se estão a verificar entre a NATO e a Rússia com as maiores mobilizações militares desde o fim da Guerra Fria. A acontecer uma III Guerra Mundial em consequência, directa ou indirecta, dos resultados de ontem, não estou mesmo a ver como isso é tão mais provável com o republicano (?) e menos com a democrata (?).

Se acho que Trump vai ser um bom presidente? Nem perto disso. Acredito que irá discutir, de novo com George Bush, o título de pior (pelo menos da história recente). Mas o país e o mundo “sobreviveram” a oito anos deles. E, ambos, no cômputo geral, independentemente disso se tornaram mais progressistas e inclusivos. Bem ou mal, Trump mudará algo.
Aceito a oportunidade de mudança e espero que ela acabe por dar frutos suculentos a todos. Quiçá, só será a médio (ou longo) prazo, mas aprovo o ‘não’ à mesmice.

Não teria esta esperança com a democrata. Hillary é um total joguete nas mãos dos lobbies, corporativismos e poderes instalados que colabora, aceita doações e faz acordos com os regimes mais conservadores e ditatoriais da actualidade.

Claramente, sou mais democrata que republicano, mas não posso deixar de ser honesto e admitir que sinto um gostinho especial em ver sucumbir um partido que pensava que controlava todo o jogo político dos EUA e que, activamente, trabalhou a favor de escolher o candidato que queria ver como seu representante durante as primárias. Resultado? Perderam a Pensilvânia e Michigan, algo que não acontecia desde 1988; bem como o Wisconsin que era azul há ainda mais tempo, desde 1984.
Os republicanos podem ser os porcos e maus, mas, surpresa das surpresas, foram os mais democratas em todo este processo. E democracia é aceitar a opinião da maioria, mesmo que ela seja completamente discordante da nossa. E é fácil esquecer isso…
É igualmente irónico ver quem tanto beneficiou de um sistema eleitoral injusto durante as primárias queixar-se agora precisamente de injustiça no ‘electoral college’.
Que tudo isto sirva também para reformular as regras datadas pela quais se rege os Estados UNIDOS da América.

O que é certo é que a América estava dividida de uma e outra maneira, e não seria, de todo, a eleição de Clinton que iria mudar o quer que fosse.
Basicamente, tínhamos um lobo vestido de lobo e um lobo vestido de cordeiro. Consciente ou inconscientemente, o povo americano fez a sua escolha… e democracia é respeitar isso.

Chamem-me anarco-progressista à vontade, mas eu gosto da perspectiva esperançosa que tenho com tudo isto. É muito fácil insultar simplesmente a inteligência de 60 milhões de pessoas e dizer que o mundo está, desde hoje, perdido.
Pode nunca ter estado tão perdido em muito tempo, mas pode também nunca ter estado tão perto de se encontrar em algo melhor…

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Cláudio Valério

Coimbrinha mais novo que o fantasma do Kurt Cobain. Estuda ciência, mas vai passar a estudar letras. Fã nº1 do Lidl.

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