Sons à Margem – Campo da Retorta – Arosa – Guimarães – 4|5|6 – Agosto

Sons à Margem é um recente festival (de verão) que emerge em Guimarães para a sua 1ª edição. O cariz alternativo da selecção de bandas em cartaz despertou-nos um diletantismo irreversível. Para melhor satisfazer a nossa curiosidade e conhecer esta neo e insubmissa proposta, estivemos à conversa com Paulo Coimbra Martins, um dos elementos da organização:

(…) incluem os históricos e seminais The Society ou os míticos Babel 17 – mas, também, pela fortíssima aposta em nomes do panorama nacional.
– Como surgiu a ideia de criar o Sons à Margem? E quais as maiores dificuldades que encontraram para o tornar real?
– A ideia de organizar um Festival surgiu pelos inícios de Setembro de 2016, no rescaldo da época festivaleira que povoa o território nacional, de norte a sul do país, nos meses do estío.
Um grupo de amigos reuniu-se, então, para concretizar uma ideia que lhes era dilecta. Embora alguns dos elementos do Grupo de Trabalho (GT) constituído já tivessem ligações à música de uma forma directa (quer através de projectos musicais, quer da rádio, quer em organização de eventos), nenhum deles tinha ainda estado à frente de um projecto desta magnitude. Contudo, um comum amor pela Primeira Arte motivou-os a seguir em frente e a dar corpo a tal acontecimento.
A isto, juntou-se o facto de vários elementos do GT se encontrarem desempregados, vendo nesta possibilidade uma forma de se poder dar a volta a essa situação particularmente nefanda, como se pode verificar noutros eventos similares, que começaram de uma maneira muito próxima (pese embora com outras condicionantes).
Mais ainda, a esta vertente juntou-se – e logo desde o início – uma ligação à comunidade local, quer através da União de Juntas de Freguesia de Arosa e Castelões, quer à Comissão Fabriqueira da paróquia de Arosa, quer à associação desportiva local. Com isto, pretendeu-se dar mais uma vertente social e económica ao Festival, uma vez que é uma região periférica do Concelho de Guimarães, e isto em vários sentidos…
Estes apoios iniciais vieram, de uma forma vincada, mitigar as dificuldades que se nos apresentaram logo desde os inícios, especialmente as concernentes à obtenção de verbas e apoios para se poder avançar com o projecto. Desde os inícios que isto é um projecto independente e que se quer pautar pela preservação dessa mesma identidade de autonomia. Por isso mesmo, a obtenção de fundos e recursos torna-se mais difícil, tendo que ser cuidadosa e meticulosamente estudada, o que obriga a várias “ginásticas” e iniciativas para colmatar essas necessidades e aspectos de financiamento.
Outras dificuldades e contratempos existem, claro, e mais irão surgir certamente, mas temos sabido encontrar diversos caminhos para as contornar e meios para as minimizar ou lhes pôr termo.
É preciso fazer notar aqui que o “Sons à Margem”, em todas as suas modalidades e variados aspectos, pretende ser um acontecimento que marque pela diferença, pretensão essa que, obviamente, também acarreta algumas dificuldades extra. Contudo, e sendo desafios a que nos propusemos, temos uma forte motivação para ultrapassar todas as dificuldades que venham a surgir, ainda mais sendo este o primeiro ano em que nos encontramos nesta posição.

Paulo Coimbra Martins – Sons à Margem

 Sons à Margem do quê?
– À margem de tudo pois que se está a verificar uma massificação exagerada de tudo o que seja medíocre… Ao mesmo tempo, uma afirmação de uma vontade de fazer e de ser, de envolver uma comunidade que, dentro da Autarquia, estava afastada, isolada… Arosa/Castelões é a Ultima Thule do Concelho de Guimarães, periférica, por natureza, e em todos os sentidos… Musicalmente, claro (e é o que nos faz mover), um espectro sonoro que não estava representado em nenhum dos festivais actuais, embora não lhes seja alienígena… Mas sim complementar… À margem pois também teve um forte contexto social ligado ao desemprego… Muitas situações… A própria estética do saudoso “Som da Frente – O Direito à Diferença” é, por nós, assumida…

– “Um espectro sonoro que não estava representado em nenhum dos festivais actuais”… ?!
– Sim, pois pautamos por um ecletismo, e nele, uma opção preferencial pela música feita em Portugal. Escolhemos nome pequenos (em comparação), mas que têm tanto direito a partilhar um grande palco como as “vedetas”… Claro que todos são eclécticos, e têm uma panóplia diversificada nas opções, mas nós congregamos “Gótico” e “Indie (lacto sensu)”… Ou seja, dar uma visão abrangente sobre várias vertentes das músicas que se pautam pela independência sonora e existencial, e por terem construído um lugar muito próprio nas cenas “alternativas” locais, nacionais e internacionais.

– Como descreves o cenário do Sons à Margem?
– Ora aí está uma pergunta que pode dar azo a vários responsos, os quais daremos com todo o gosto. O cenário do Sons à Margem é bastante bucólico, enraizado que está numa zona rural e de periferia, relativamente aos centros urbanos mais consideráveis da região (nomeadamente Guimarães e Braga). Socialmente, também se nota esse carácter de ruralidade, com pessoas simples (no melhor sentido do termo) e com uma enorme vontade de ver coisas a acontecer na sua terra. Musicalmente, estamos “à margem” do que se pode verificar na maior parte dos cartazes de outros festivais, ou seja, não somos demasiadamente específicos, não nos cingindo a apenas uma corrente musical, mas, ao mesmo tempo, também não somos eclécticos ao ponto de não termos uma identidade própria ou um espectro sonoro que não obedeça a certos e determinados critérios.

–  Destaques desta primeira edição?
–  Cremos que os pontos mais importantes passam não apenas pelos nomes incluídos no cartaz – que incluem os históricos e seminais The Society ou os míticos Babel 17 – mas, também, pela fortíssima aposta em nomes do panorama nacional. Mais ainda, a complementarização do Festival com bandas escolhidas no Primeiro Concurso de Bandas Emergente reforça o pendor alternativo do mesmo, garantindo-lhe um carácter e personalidade mais próprios.
Destaque ainda para a independência da organização, que começou do zero e sem financiadores ou patrocinadores, tendo-se multiplicado em esforços para conseguir levar avante todos os seus propósitos.
De referir, também, a escolha da localização do evento, na União de Freguesias de Arosa e Castelões, uma região periférica do Concelho de Guimarães, pretendendo o Sons à Margem contribuir no sentido da inversão dessa tendência e situação, através da interligação com as comunidades locais.

–  O que é irreversível?
–  Várias situações, incluindo a realização do evento principal, mas também – e muito importante – a ligação com a comunidade local e todas as dinâmicas que fomos implementando ao longo do processo organizativo, tais como o Concurso de Bandas Emergentes e toda uma série de outras actividades que fomos (e vamos ainda) promovendo até à concretização do Festival. Resumindo, o Sons à Margem não se limita a ser um conjunto de concertos localizados num período de tempo restricto (neste caso concreto, nos dias 4, 5 e 6 de Agosto deste ano), sendo – isso sim – um conjunto de várias actividades que se prolongam no tempo até à realização do acontecimento que é o motor de todas estas dinâmicas, e que é o Festival em si.

 

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Francisco Barros

- Realizador e locutor radiofónico nos 90´s com "Rockodromo" & Outros
- Proprietário da extinta "Crash-Discos".
- Vocalista em "Model".
- Passador de música e performer em "Robotic Sessions".
- Musico experimental & Ocasional
- Colaborador e Ex-colaborador em diversas publicações nacionais e locais.

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