Silvano Lopes é um jovem profissional da área audiovisual que aos 29 anos acrescenta aos seus projectos as missões de voluntariado e está prestes a partir novamente:

– Qual é a tua próxima viagem de voluntariado?
– Estou a planear para Abril, ainda estou a tentar conciliar com a vida profissional o que nem sempre é fácil. Uma das grandes dificuldades é gerir o tempo… O destino ainda não está completamente definido, existem vários locais que gostava de visitar nesta próxima missão, possivelmente o Peru.

– O que te levou a fazer voluntariado?
– … Tudo começou com uma sugestão de um familiar, tinha uns 13 ou 14 anos e o bichinho do voluntariado nunca mais desapareceu, entre as inúmeras opções que existem, seja em Portugal ou seja por esse mundo fora, surgiu a ideia de apadrinhar uma criança num país africano, o que acabou por se concretizar através da Um Pequeno Gesto, então, apadrinhei o Xavier, uma criança Moçambicana, que tinha 6 anos de idade. A ideia de visitá-lo tornava-se cada vez mais forte, no entanto a viagem ficava muito dispendiosa… Foi aí que surgiu a ideia de angariar fundos de forma a tornar viável a viagem, assim como promover a ONG – Um Pequeno Gesto através de fotografias e vídeos.

– Entre as acções de voluntariado que já fizeste qual destacarias?
– Destaco a minha primeira missão que foi em Moçambique, por vários motivos… Parti para a aventura sempre sozinho, foi a minha maior viagem… Uma cultura que pouco conhecia e uma realidade completamente diferente do que estava habituado. Foi passar de 80 para 8… As crianças, o país, as pequenas coisas que, de certa forma, passaram a ter outro significado quando comparadas com a nossa realidade em Portugal… Apesar de nunca ter faltado nada de repente parecia tudo muito mais difícil de alcançar… Dar aulas de apoio, que podiam ser quase de qualquer coisa, às 06 da manhã por baixo de uma amendoeira, visitar as comunidades com o objectivo de conhecer as necessidades mais imediatas, andar de chapa – viaturas de 9 lugares – esmagado com 20 pessoas ou mais lá dentro com um calor infernal, a falta de água,  as casas de banho que não existiam…

– Quais as maiores dificuldades que encontras nas missões de voluntariado?
– Antes de tudo, conseguir não viver os problemas dos locais, conseguir diferenciar o nosso mundo do deles, no fundo tento usar a câmara como uma capa protectora que não me deixará levar por coisas cruéis que vejo diariamente.
No terreno a maior dificuldade acaba por não ser a falta de comodidades ou estar longe de quase tudo o que estamos habituados no dia-a-dia… A maior dificuldade acaba por ser não perder o registo do momento, como estou sozinho torna-se uma luta constante entre fotografar, filmar, ou ficar simplesmente a brincar com uma criança…  Nunca sei qual delas optar e sei que vai falhar sempre uma delas, mas tenho treinado uma forma de fotografar e filmar praticamente ao mesmo tempo, que vai resultando apesar de limitado. A comida também é uma dificuldade, nunca passei fome mas tem que ser muito básica.

– Nas tuas acções enquanto voluntário o que mais destacas? O envolvimento com as comunidades e a acção de voluntariado, ou o teu trabalho enquanto fotógrafo?
– Considero tudo importante… O pouco que podemos fazer no terreno tem sempre um impacto directo, mas estou convencido que o trabalho enquanto fotógrafo tem mais força, isto porque desta forma chego a um maior número de pessoas…  Dá mais reconhecimento às ONG, o que acaba por traduzir-se em mais apoios e voluntários.

– E como funciona este teu projecto em termos de apoios? De onde vem o financiamento?
– A parte financeira é sempre o maior problema, muitos acham estranho o facto de se pagar para fazer voluntariado, confesso que também já pensei assim, de facto faz sentido suportarmos todos os custos mas não mais que isso. Vai um pouco da minha personalidade, não gosto de andar a pedir… na primeira viagem não tinha qualquer apoio, corri dezenas de empresas, e-mails, chamadas, reuniões, mas nunca tive qualquer tipo de apoio. Comprei a passagem com o cartão de crédito sem dinheiro para a pagar, mais tarde consegui um apoio da Câmara Municipal da Trofa, que cedeu a Casa da Cultura para realização de um conjunto de workshops onde consegui angariar algum dinheiro… Foi muito gratificante ver os amigos a aderirem e ajudar a causa, mas são sempre custos muito elevados.

– Os apoios surgem, então, sempre directamente de iniciativas promovidas por ti e/ou do teu próprio bolso?
– Sim, como referi na resposta anterior é difícil chegar aos responsáveis de empresas que aprovam fundos para missões de voluntariado. São portas que não abrem, chamadas que não são respondidas, é uma luta… Mas os amigos tem respondido muito positivamente às iniciativas que promovi, estes sim estão sempre presentes, e cada bocadinho conta.

– Como e quando começaste a enquadrar a tua paixão pela fotografia e vídeo nestes projectos?
– A fotografia e vídeo foram também dos principais motivos para partir, sei que podia ajudar no terreno como em qualquer missão de voluntariado, também colaboro nesse sentido sempre que possível, mas vou com o principal objectivo de passar uma mensagem, de chegar aos computadores dos internautas com imagens daquele lado, de apelar a solidariedade dos mesmos e desta forma fazer com que as ONG, com que colaboro, ganhem uma maior dimensão.

– No final das tuas missões o que retiras disto tudo enquanto indivíduo?
– Viver, por pouco tempo que seja, num ambiente onde as crianças são adultas, onde brincar é substituído por trabalhos comuns como carregar água, trabalhar na agricultura para comer ou tomar conta dos bebés, entre tantas outras tarefas que não deveriam ser para crianças, alerta-nos para a nossa realidade onde damos por garantido coisas tão simples como abrir uma torneira e que noutro ponto do globo são luxos inacessíveis.
Recomendo a toda a gente que o possa fazer, partir em missões de voluntariado. Não há palavras para explicar o que se sente quando aquilo que parece ser tão pouco para nós, é tanto para outros.

O que é para ti Irreversível?
-Irreversível é o passar do tempo… É o relógio sempre a contar e não podermos ficar para sempre jovens ou cheios de energia para projectos e planos.

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Foi lançada recentemente a página oficial do projecto que podes visitar através do link: Voluntariado pelo Mundo

 

A Irreversível afirma sua total subscrição ao projecto e a futuras iniciativas.
Pretendemos também que esta entrevista seja uma provocadora de conversas e transformadora das condições em que alguns humanos vêem a condição de outros humanos.

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Miguel Sousa

Responsável pela agenda Irreversível.

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