O Irreversível queria fazer uma crónica com o jovem autor Rui Taipa, uma coisa simples, mas o rapaz diz coisas, tem coisas interessantes para dizer, acabamos por optar transcrever parte da entrevista na integra para que também vocês conheçam melhor este jovem valor da musica nacional.

O que te levou a fazer musica?

Rui Taipa

Rui Taipa

Eu não me lembro do dia em que a música entrou na minha vida porque as crianças só criam memórias a partir dos 3 anos de idade (risos). A minha mãe dava aulas na Escola Infantil de Música de Freamunde, comigo na barriga.

Superstição ou não, pode ter influenciado. A minha família por parte da minha mãe também está carregada de artistas: avós no teatro há 50 anos, tios percussionistas e a minha mãe era professora na escola. Ia ser músico nem que não quisesse (risos). Claro que eu tive escolha mas, o mundo do espetáculo puxava mesmo muito por mim, nomeadamente na música, e notou-se desde cedo.

O meu percurso foi um pouco atribulado: nas aulas de solfejo era um reguila, um melrinho (risos), depois entrei em bateria e percussões, saí, depois voltei mas não durou muito porque o professor dizia que eu tocava de cor em vez de olhar para a partitura e eu, chavalo de 10 anos, “chateei-me” e deixei aquilo… (risos) Fiquei durante uns anos com a harmónica como único instrumento (desde os 7 anos, história engraçada para um café um dia destes) e em casa ia cantando umas coisas.

Na altura Linkin Park era a cena fixe para os putos de ciclo. Lembro-me também de cantar 3 Doors Down com a embalagem de gel para o cabelo a fazer de microfone. Até que aos 14/15 anos fui ver uma audição de um primo meu na escola de música onde andava a aprender guitarra e eu que sempre tive aquele bichinho pela guitarra, mas nunca tinha arriscado fiquei do género “fogo, miúdos de 8 anos a tocar?? Também quero!”.
Inscrevi-me e ao fim de 6 meses estava a ajudar o professor a dar aulas aos que já lá estavam há 3 anos, entreguei-me mesmo àquilo. Estava no 10º ano e lembro-me que foi nesse ano que a minha professora de Biologia me disse “tu devias era estar em Artes!”. (E agora estão os The Hives a tocar na minha cabeça [risos].)

A seguir, nas audições, toparam que eu cantava afinado e tal e deu-se o “oh Rui, tu podias cantar as músicas que eles tocarem também?” e assim nasceu o bebé Taipa (risos).
Dessa escola surgiu um grupo de covers em que cantávamos N de Pearl Jam, a Resistência, Variações, Xutos, etc. e daí a escrever as minhas próprias malhas foi um saltinho. Quem diria, o início de tudo isto foi em 2008, não passou assim tanto tempo.

Consideramos-te um " songwritter". É assim que te vês?
Sim, eu escrevo as minhas próprias canções desde a letra ao esqueleto do tema. Se bem que, agora com “Taipa + The Blackbirds”, a criação está a tornar-se mais colectiva. Mas eu curto muito isso de agora ter dois processos criativos. Sou um puto à beira deles e essa convivência está a fazer-me crescer muito. Mesmo assim as letras é sempre “o Palma de Freamunde” que as escreve.
A música que fazes é um espelho da tua personalidade, ou é uma espécie de alter-ego?

O meu pai uma vez disse que eu expunha talvez demasiado a minha vida pessoal nas músicas que escrevia, acho que isso responde à tua pergunta. (risos) Mas com a “Why?”, por exemplo, a história que lá conto não aconteceu de facto.Foi a minha tentativa de novela (“ai porque é que me deixaste e foste com o outro?!?!”). Muito TVI, mas musicalmente tenho a noção que é dos temas mais fortes, também pelas reações do público em concerto, quer em acústico quer com banda. Já a “Melro” é um enorme espelho de uma história vivida e as pessoas que me conhecem, ouviram o tema e associaram aquilo a uma desamor meu ou algo parecido, enfim, algo que vivi. De tal forma que “melro” já começa a ser alcunha! (risos)

Com 21 anos e num país onde programas como o Ídolos "SIC" são rampas de lançamento mediático, como pretendes desenvolver/mostrar o teu trabalho? Consideras que a cena musical nacional valoriza os trabalhos de autor?

Posso dizer que em 2010 fiquei nos 25 semifinalistas do ídolos e pouca gente sabe (e ainda bem), mas foi bom estar lá dentro porque percebes melhor as engrenagens da “máquina” da televisão. Na altura, localmente falando, tive os meus meses de fama levezinha e valeu-me uns concertos por bares da zona. Bares esses que eu já frequentava e ninguém supunha que eu cantava, só souberam depois do “Ídolos”. Entretanto os temas originais iam surgindo e eu colocava-os no meio do alinhamento de covers que fazia, sem dizer que eram meus, depois surgiam elogios e eu ia vendo as reações do público, pronto: Bola de neve. Isto para dizer o quê? Que pelo menos no meu caso em que mal apareci (e isso é bom) não foi a participação no ídolos que me lançou mas sim os pequeninos concertos em bares que surgiram com isso porque malta de Freamunde se lembrou “ah foste à televisão? Então anda cá cantar umas cenas!” e pronto a cena foi crescendo, ganhando credibilidade, tocar em mais e mais sítios e aqui estou eu. E como diz o meu Palma “enquanto houver estrada p’ra andar a gente vai continuar!”. (risos)

Rui Taipa

Rui Taipa

Também tive a sorte de apanhar gente muito boa que me ajudou e me continua a ajudar. Mas, respondendo à parte da pergunta de como pretendo lançar-me num país em que esse tipo de programas é tido em conta como uma rampa de lançamento: não creio que o público que acompanha esses programas seja o público ao qual quero chegar, por isso não me aquece nem me arrefece. Vou ser muito desagradável agora mas é a pura das verdades: pergunta a alguém que escreve as suas próprias canções, que já tenha lançado pelo menos um EP a solo ou com banda e que está a tentar levar a cena avante a nível de concertos em festivais, rádios, etc. enfim, uma cena a sério, se preferia ter 10.927 miúdas de 10 anos aos gritos com cartazes a dizer “Amo-te fulano, por ti cortava os pulsos com um x-acto” (risos) num concerto e ser um ícone durante apenas uns meses, ou ter apenas 300 pessoas, desde crianças a adultos, a assistir a vários concertos desse “alguém”, a acompanhar o seu percurso e a ir aos concertos sempre que pudessem, que por muito que armassem a tenda e assobiassem a puxar por esse “alguém”, eram gente com cabeça, civilizada, que passado uns meses não o esqueciam porque para essas pessoas ele não é uma moda, é um artista, é um músico e as pessoas gostando acreditam e o apoiar aqui não se trata de ligar o “760”.

Rui Taipa - foto: Ana Marta Pinho

Rui Taipa – foto: Ana Marta Pinho

Isto revolta-me mesmo porque não se trata de uma questão de gosto, penso que é uma questão cultural mesmo. (sim, também é uma questão de idades, mas a minha irmã com 10 anos não cortava os pulsos pelos D’ZRT porque tinha educação em casa). E sim, acredito que há espaço para toda a gente.Portugal tem um panorama musical tão vasto e tão porreiro… Vês malta nova (ainda assim mais velha que eu (risos) a fazer coisas tão interessantes e eu sei que eles não vão deixar de singrar porque existe programas como o “Ídolos” ou whatever porque o público do rock; do indie; do post; do rock electrónico; do que quer que seja, vai estar sempre lá mas cada macaco no seu galho.

(Desculpa o longo discurso mas acho isto de uma importância extrema, mesmo. Vão haversempre programas “esquisitos” ao Domingo à tarde mas também vão haver sempre espetáculos interessantíssimos no Maus Hábitos, no plano B, no Hard Club ou na Casa da Música, passo a publicidade[risos]).

- Objetivos musicalmente?
Conseguir viver da música engloba tudo o que desejo desde puto. Mas, aprofundando, quero muito trabalhar melhor o projeto de Taipa + The Blackbirds porque, nos poucos concertos que demos, recebemos críticas muito positivas e construtivas (acima de tudo) e eu acredito mesmo que ali está algo diferente do que se tem ouvido. Às tantas Rui Taipa a solo também está mas não tem o “caparro” que a cena com banda tem.

Rui Taipa é um jovem de 21 anos, aluno do 3º Ano da Licenciatura em Música no Instituto Politécnico de Bragança, que desbrava caminho na cena musical portuguesa, na sua música e atitude encontramos influencias de Sérgio Godinho, António Variações ou Bob Dylan, tudo cheio de originalidade e cunho pessoal.
Num panorama musical nacional onde todos são cada vez mais iguais a todos, ser original, ter o seu próprio caminho, parece aparentemente tarefa complicada, mas temos em Rui Taipa um bom exemplo de qualidade, tenacidade, e originalidade, em oposição ao bocejo continuo.
Ficaram ainda respostas e perguntas na gaveta… O reencontro, e a continuação, entre o Cantautor e o Irreversível ficou agendado para um qualquer palco em breve.
Para encontrar datas de concertos e ouvir a sua musica visitem Rui Taipa Oficial.

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Miguel Sousa

Responsável pela agenda Irreversível.

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