Tenho fome.
Vou pôr duas fatias de pão integral a torrar. Vou barrar uma com planta, e na outra acho que vou colocar marmelada.
Gosto de marmelada, principalmente da caseira. Acho que a marmelada caseira é sempre melhor do que a vulgar, deve ser por ser feita com mais carinho, não sei…
Bem boa a marmelada. E a planta, a derreter barrada na torrada, que bom.
Vou pôr mais duas fatias na torradeira.
Sou um guloso, confesso.
Hoje até foi um dia bom, como os outros, mas passei a manhã desconfortável porque me doía a cabeça. Acho que foi porque adormeci no sofá a ver notícias sobre os refugiados. Ou migrantes, não sei bem como lhes chamar, acho que ainda não há consenso. É que faz um bocado diferença gerar opinião sobre esta questão quando não se sabe bem o que são aquelas pessoas. São pessoas, disso não há dúvidas. Ou há?
Aquelas torradas não me deixaram satisfeito.
Vou ao frigorífico explorar, quer dizer, não há muito para explorar, dado que está quase vazio…
Puta que pariu, ainda nem a meio do mês vamos e já estou teso…
Tenho um iogurte grego de maracujá, mas queria guardá-lo pr’amanhã.
A data expira hoje?
Hum…
Que se foda, amanhã ainda deve tar bom. Isto deve ser tendência de tudo o que é grego, até o iogurte quase fora do prazo é deixado pr’amanhã. Também se não estiver bom, deito fora e quando receber, no fim do mês, compro mais…
O que vale é que tenho marmelada, da caseira.
Podia ser pior.
Dizia eu que hoje até foi um dia bom, o trabalho até não correu mal. Só fui enxovalhado pelos clientes ao telefone duas ou três vezes, mas também só porque a linha de apoio estava calma, caso contrário seriam quinze ou vinte.
As pessoas que ligam para as linhas de apoio e regurgitam a fúria nos operadores recorrendo ao uso de figuras de estilo complexas no discurso que nem conhecem, são, no seu âmago, umas bestas quadradas. Eu até os compreendo, andam frustradas e revoltadas com a vida e um gajo faz um esforço por se pôr no lugar deles. Se eu andasse fodido com a vida, a contar os trocos para ter o que comer, e me cortassem os serviços que tenho subscritos por ter duas faturicas em atraso também despejava nos operadores, esse cabrões servos das corporações gananciosas e trapaceiras. Até podia só ter planta e marmelada no frigorífico, mas cortarem-me a tvcabo e a net é a gota de água, foda-se! Um gajo precisa da net pra acompanhar a cena dos refugiados, ou migrantes ou lá o que são!
Mas mesmo que não os compreenda, não há grandes alternativas. É um sacrifício que tenho que fazer para poder comprar iogurtes gregos de maracujá no fim do mês.
Podia ser pior.

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Simão Mendes

Terráqueo abstracto que todos os dias procura descobrir-se e a quem o riso é indispensável. Vive despreocupadamente. Viciado em pizza, aprecia o café a 3/4 e sonha ir ao espaço.

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