O vencedor da votação publica para o “Prémio Irreversível do Ano” foi Eder Lopes.
Em semana de aniversário da magazine atribuímos o prémio com 2 textos de autores Irreversíveis, Hildebrando Pereira e Miguel Pedro Carvalhais:



Mérline e o Eder

Neste Ano 1 d.E (Depois de Eder), há muitas coisas que permanecem iguais na minha vida. Dir-me-ão vocês que só passaram 30 dias, mas não se foquem nesse pormenor irrelevante, o Eder esteve em campo pouco mais do que meia-hora e foi responsável pela concepção de muitos bebés nessa noite de 10 de Julho, por isso 30 dias podem bem ser encarados como uma eternidade. Uma dessas coisas, talvez a principal, é a irredutibilidade em trair a minha Pátria. Isso e rezar três vezes ao dia virado para Lille, terra do Profeta.

Dizem que “quem não sente, não é filho de boa gente”, e nesse final de tarde de um solarengo dia de Julho, todos os franceses eram filhos de boa gente, pois não houve um único que não tivesse sentido um valente aperto no cu. Sabem quando temos visitas em casa e nos dá aquela pontada aguda na barriga, e nós percebemos imediatamente que temos de ir aliviar a tripa ? Saímos sorrateiramente da sala onde os nossos convidados ainda degustam as sobremesas. Alapamos o cu na sanita. Impotentes, concluímos que é uma daquelas ocasiões em que a iniciação do serviço não poderá ocorrer sem que exista uma sonoridade demasiado audível, vulgo … sem que um gajo se peide forte e feio.

Embaraçados, tentamos pôr música no telemóvel, abrir as torneiras, puxar o autoclismo, tudo para tentar abafar o som. Foi um pouco assim que os Avec’s se sentiram. Primeiro, o impacto. Segundo, o ter que lidar com a situação. Terceiro, um plano para disfarçar. Sabem .. aqui na Tugalândia ninguém se esqueceu do “dégueulasse“, do autocarro já decorado para os festejos e das piadas estereotipadas sobres os nossos emigrantes em França serem todos trolhas. Mas por falar em trolhas …

… ontem estava a fazer umas modificações no meu quarto. Já estava na altura de substituir os posters do Bob Marley, também já não faz sentido que as paredes estejam pintadas de verde e amarelo com a bandeira da Jamaica ao fundo. Afinal de contas, porra, eu já não tenho 24 anos. A fase da rebeldia já lá vai. Sou homem agora, um homem de 25.

Decidi mudar.

Enquanto pintava no tecto do meu quarto uma reprodução do golo do Eder, muito ao estilo Capela Sistina do Michelangelo menos talentoso que conhecemos, o italiano, na altura de dar os toques finais acaba-se-me a tinta. Ok. Estou aqui perto do Parque Nascente, espaço também conhecido por ter sido o primeiro centro comercial do Grande Porto a acolher a Primark (só para quem é de fora se conseguir situar), vou dar lá um saltinho.

E é à luz deste meu sentido de devoção patriótica, que continuo a recusar pronunciar palavras francesas de forma correcta, mesmo que até saiba usá-las na sua forma original.

Não sei se serão influências do “Querido, mudei a casa“, programa conduzido pelo maior filósofo dos tempos modernos, comecei a notar que cada vez mais pessoas dizem: Lerrúa Mérrlán (Leroy Merlin). Lerruá Mérrlá ? Como ? LERRUÁ MÉRRLÁ ? Mas que merda é essa ? Não conheço, não sei onde é, nem faço questão de aprender.

Eu quando quero comprar uma retrete, uma luz de presença, aditivo anti bolores e fungos DYRUP 75ML ou uma puta duma lata de tinta para acabar de pintar o tecto do meu quarto não me dirijo ao Lerruá Mérrlá … eu vou imediatamente ao LÉRÓI MÉRLINE.

Sim. LÉRÓI MÉRLINE.

São estes os valores que eu quero transmitir aos meus filhos. E quem não concordar com minha forma de exercer a parentalidade, que vá para o caralho porque eu é que sei. Em minha casa, filho meu só diz LÉRÓI MÉRLINE. Foi esta a educação que os meus pais me deram e vai ser esta que eu irei dar aos meus filhos. Isto não tem nada a ver com a Pátria, para ser sincero. Eu é que sempre disse LÉRÓI MÉRLINE e quis finalmente desabafar e tirar este peso enorme das costas.

E foi exactamente isso que o Eder fez.

Não vale a pena tentar eufemizar: a opinião geral sobre o Eder era que ele era merda. Eu achava que ele era merda. Os meus amigos também. O seleccionador que o convocou também. O próprio Eder sentia-se merda. Até a minha avó que tem 90 anos, ouve e vê mal e não faz a puta da mínima ideia de quem seja o Eder, diria que ele era merda se eu lhe perguntasse o que achava dele. O Eder, mais do que uma piada ambulante, era uma merda. Caralho, o Enrique Iglesias deve ter produzido mais músicas nos últimos 3/4 anos com a palavra “Bailamos” que o Eder golos.

Eu estou a insistir bastante na palavra “merda” porque a vida dá muitas voltas e está repleta da heróis improváveis, que vão desde o Afonso Henriques que fodeu a mãe e fundou um país, ao gajo que inventou o Chocapic, até àquele rapaz que 99.9% da população tinha em má conta e que um dia resolveu baralhar o nosso julgamento imbecil com um simples golo fora da área.

Tal como a vida dá muitas voltas, as palavras também o fazem. Merda é merda, já percebemos. Mas o Eder ensinou-me, ou ensinou-nos, que é possível escrever com as mesmas letras outras palavras. Isto não é nenhum incentivo para comprar a biografia do moço, é um estalo bem dado naqueles cujo medo lhes impede de ir mais além, de trilhar o caminho que nós queremos trilhar, não aquele que os outros esperam que nós trilhemos, que no caso do Eder … era que ele fosse uma merda.

Mas aquela recepção não foi uma merda. O rodopiar não foi uma merda. E o remate não foi uma merda. O Eder levou a força de um país inteiro naquela bota, levantou o dedo do meio a todos os azares e todas as críticas, e reescreveu o seu próprio destino que parecia há muito já traçado: sim, vou dizer outra vez … que ele era merda.

O Eder é a coragem de virar o mundo ao contrário, é desfaçatez de enfrentar as suas próprias sombras e mexer com o destino. E por falar em mexer … se eu mexer um bocado com a palavra “merda“, sabem o que é possível obter ?

D R E A M.

Obrigado Eder, esteve sempre escrito. Nós é que demoramos a ver.

(por: Hildebrando Pereira)Sem-dTítulo

Eder na Mente

Ederzito António Macedo Lopes – Guiné Bissau
Nani – Cabo Verde
Ricardo Quaresma – Portugal
Pepe – Brasil
Renato Sanchez – Portugal
Rui Patrício – Portugal
André Gomes – Portugal
Raphael Guerreiro – França
João Mário – Portugal
João Moutinho – Portugal
Cédric – Alemanha
José Fonte – Portugal
Adrien Silva – França
Bruno Alves – Portugal
William Carvalho – Angola
Danilo Pereira – Guiné Bissau
Rafael Silva – Portugal
Anthony Lopes – França
Eduardo – Portugal
Ricardo Carvalho – Portugal
Eliseu – Portugal
Vierinha – Portugal
Cristiano Ronaldo – Portugal

O vencedor está encontrado!
A quem se perguntar o porquê de uma lista de jogadores e a sua naturalidade, pois é sinal que andam muito distraídos com o que se passa no mundo de há uns tempos para cá, a resposta deveria ser evidente, vivendo nesta época conturbada pela qual estamos a atravessar achei por bem relembrar que pessoas são pessoas, independentemente do seu local de nascimento, sexo, cor, religião, tendência sexual ou política, etc.
É fundamental não comer a merda que alguns nos tentam dar a comer.
Posto isto sigamos então.
Vi a final em casa de uns amigos, no meio de minis e petiscos, ou seja, tinha tudo para correr bem e correu, confesso que no momento em que o Ronaldo saiu lesionado depois de uma grande sarrafada não fiquei preocupado, provou-se verdade que não o seria.
Depois disso e alguns: “puta que pariu e vai p´ro caralho”, que ficam sempre bem na visualização de um jogo, mandei um bitaite: “o gajo vai pôr o Eder e vamos ganhar esta merda” ao que me responderam: “epá, olha que se calhar.” Podem não acreditar mas foi mesmo assim e tenho testemunhas mais ou menos credíveis, até porque ainda não estava ninguém bêbado, para lá caminhávamos.
Ora, o miúdo lá entrou, já os franceses tremiam como varas verdes, passando depois à categoria do “não lhes cabia um grão de arroz no cu”, tal a qualidade futebolística que nós estávamos a demonstrar, foi apenas uma questão de minutos até que a profecia se concretizasse em realidade, daquela bonita de se ver e rever, e era ver a malta aos pulos e aos gritos de contente de algo inédito para todo o portugal.
Aquele que tinha sido tanta vez criticado, por mim incluído confesso, era agora o herói do jogo e quiçá do século, calou as bocas a muita gente e sim a mim também, mas mais do que isso, o grupo calou a boquinha a esses inbejosos do catano de quase toda a prensa desportiva que dizia cobras e lagartos da equipa, para ganhar não é preciso ter o jogo mais bonito e aprazível, é preciso é chegar lá, com alguns empates e vitórias, sim, vitórias, ao contrário daquilo que ouvi algumas vezes em comentários meio parvos: que tínhamos lá chegado sem ganhar um jogo, ou porque foi de pontapés da marca de grande penalidade e ainda que tivemos que ir sempre a desempate, pois, foi tudo isso, mas nós chegamos lá, os outros não e isso faz toda a diferença.
Há e haverá sempre algo a reter, a uns ficará no coração, a outros na cabeça, a mim é na mente, Eder na mente.

(por: Miguel Pedro Carvalhais)

 

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