De Moscovo a Vladivostok são sete dias seguidos de viagem (…)
Após encontrar a carruagem certa, perdida nas outras 26 carruagens que compõem aquele comboio nocturno, confiro com a provodnitsa (1) o número da minha cama. Carregada com a minha mochila, subo as íngremes escadas que me levam ao interior da carruagem, que percorro enquanto procuro o número da cama que me havia sido designada. É uma cama de cima, eu sei, pois o número é par…
São 54 as camas na carruagem em terceira classe, distribuídas em aberto, em nichos de quatro camas (duas acima e duas abaixo) mais as camas ao longo do corredor. Esta amplitude permite-nos entranhar na privacidade alheia. Esta mesma falta de privacidade, faz-nos viajar pelos mais íntimos costumes do quotidiano russo.

Não é a primeira vez que viajo no transiberiano, mas é a minha primeira vez na platskarny, e estou encantada. É aqui afinal, que está o concentrado russo!
De Moscovo a Vladivostok são sete dias seguidos de viagem, e aqui, em Novosibirsk, o comboio já leva com dia e meio de viagem. É portanto há dia e meio que não se toma banho, que se preparam as refeições no pequeno espaço destinado a cada passageiro.
Do charme das fotografias que vêm nos livros de viagens, pouco ou nada sobra a esta hora da noite: a mescla de cheiros mista de fontes duvidosas; a noite é escura, e entre ressonares e tosses, apenas ressaltam vislumbres daqueles que são os meus novos 53 “companheiros de quarto” para as próximas horas.
Encontrei a minha cama. Estou encaixada entre uma família russa, já de idade avançada. Cumprimento-os, mas a matrona da família olha para mim com ar de poucos amigos. Acho que sou a única estrangeira da carruagem: afinal, os turistas olham para a viagem no transiberiano como a viagem de uma vida, e reservam lugares em kupe (2) ou 1ª classe apenas. A 3ª classe, ou platskartny como são conhecidas estas carruagens, é para os pobres, para aqueles que têm que fazer uma longa viagem de dias para ir à capital, Moscovo, ou para visitar familiares. Para aqueles que não têm dinheiro para a viagem de avião, ou para quem tem medo de andar de avião. Mas não para aqueles que andam de férias, ninguém faz isto por diversão. É isso que diz o olhar sisudo dela enquanto olha para mim. E eu aflita, interrogo-me como raio vou eu subir para aquela cama, sem pisar as camas de baixo. E como vou eu conseguir por a mochila no compartimento acima da cama?

O meu olhar inquisitivo não deixa dúvidas, e rapidamente sou abordada por um outro homem, também ele russo, com os seus 50 anos. Sorri e gesticula a perguntar se quero ajuda. Esta é a Rússia que conheço: pessoas que não falam a nossa gramática, mas que compreendem a nossa “língua”. Aponto para mim e digo “Tânia”. Ele sorri abertamente, e exclama “Tatiana!!”, e aponta para ele e diz “Alexis”. Estende-me a mão. Fácil, já somos oficialmente amigos. Aqui na Rússia, Tânia é um diminutivo de Tatiana, e por respeito poucos são os que me chamam Tânia. É complicado explicar que Tânia é um nome inteiro, com principio, meio e fim, lá de onde vimos. Sorrio, e agradeço com o meu russo limitado, aprendido com a facilidade de ter familiares russo: очень приятно (ochen’ priyatno).

O Alexis leva-me ao inicio da carruagem. Mostra-me onde está a dormir – logo na primeira cama, apresenta-me à provodnitsa, e disponibiliza-se para me ajudar no que for preciso. Mostra-me onde tiro a água quente para o chá, onde coloco o lixo, o papel onde está afixado o horário do comboio, e aponta muitas vezes para o relógio: não esquecer que toda a linha férrea russa corre no horário de Moscovo. E eu sorrio, agradecida. Não é a primeira vez que viajo no transiberiano, mas é a minha primeira vez na platskarny, e estou encantada. É aqui afinal, que está o concentrado russo!



1 provodnitsa: as funcionárias responsáveis pelo funcionamento de cada carruagem do comboio.
2 kupe: compartimentos de 2ª classe nos comboios russos.

Texto e fotografias: Tânia Neves

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