Um dos argumentos transversais à retórica pró-austeridade da qual o governo e os partidos que o suportam mais têm feito uso é aquele que nos diz que os portugueses viveram acima das suas possibilidades. Uma verdade absoluta, que vai dos sucessivos governos que alimentam hordas de boys e uma série de outras balofices que fazem do Estado português um corpo obeso, até ao português comum, que insiste em comprar frigoríficos e comer o ocasional bife.

Pedro Passos Coelho não é, portanto, diferente do português comum. Apesar da insistência na ideia acima referida, também o primeiro-ministro vive acima das suas possibilidades. Pelo menos é o que podemos concluir das palavras de António Passos Coelho, seu pai, que em entrevista à revista Flash afirmou que o seu filho “gasta tudo o que ganha”, o que o levou a ter que pedir um empréstimo ao banco para lidar com despesas inesperadas decorrentes da doença da sua esposa.

Claro que, sabemos, Passos Coelho não aufere o salário mínimo como a esmagadora maioria dos seus concidadãos. A sua remuneração ronda os 5 mil euros, a que acrescem ajudas de custo e outros benefícios que fazem com que o seu rendimento real seja muito superior ao vencimento. Por outro lado, Pedro Passos Coelho exerceu funções em conselhos de administração de algumas empresas de maneira que, fosse ele um homem dado à poupança e teria hoje um bom pé-de-meia.

É fácil dizer ao português que recebe o salário mínimo que vive acima das suas possibilidades, ou não estivessem as suas possibilidades no limiar da sobrevivência. Mais fácil ainda é ganhar por mês o que essa pessoa ganha num ano e ainda assim dar-lhe lições de moral quando muitas vezes o suposto despesismo decorre de uma doença ou de uma outra emergência qualquer. Difícil é usar e abusar deste paleio e ser-se a sua absoluta antítese. Requer uma lata que não está ao alcance de qualquer um.

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João Mendes

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