O cartaz do Festival EDP Vilar de Mouros 2017 reflecte a aposta da organização em reafirmar o evento através da transversalidade de estilos musicais e de gerações.
As escolhas de  bandas e projectos como Primal Scream, 2ManyDjs, The Jesus and Mary Chain, The Mission, The Psychedelic Furs, Morcheeba, The Young Gods, The Veils, George Ezra, Peter Bjorn and John, Capitão Fausto ou Salvador Sobral confirmam isso mesmo.18767400_1990817424481800_2413761867296879080_n

… Vilar de Mouros 1996 foi verdadeiramente o meu primeiro festival de verão. Já tinha passado por Paredes de Coura (honra lhe seja feita), onde também estive nesse ano , mas naquele Agosto de 96 tudo mudou quer para mim, quer para, tenho a certeza, alguns milhares. Foi uma descoberta.

Chegamos àquilo que seria a zona do festival quase uma semana antes, conseguimos os melhores lugares junto ao rio, de tal forma que quando os festivaleiros começaram a chegar, a zona de campismo começou a crescer junto às nossas tendas e não no local que entretanto a organização preparou para o efeito. Curiosamente acabamos por ficar bastante distanciados do recinto, aliás, a travessia do rio era até perigosa e, depois de um festivaleiro ter caído de forma algo grave, não arrisquei esse curto e sinuoso percurso mais nenhuma vez, o que obrigava a uma grande caminhada e a pensar muito bem quando e como se ia de um local para outro e vice-versa. Seja como for, junto às nossas tendas havia sempre festa. As sombras durante o dia, a rampa para o rio, o pequeno barco amarrado à árvore, tão útil quer para lavar tachos quer para higienes pessoais, as violas e os batuques até o dia nascer,… aquele era e foi o spot… ali nunca ninguém dormia.

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A t-shirt “Nick Cave” | 1996

Ficamos até um par de dias após o termino do evento, perdurando por lá mais de uma semana, acho que ninguém daquele grupinho se queria vir embora. Mas tudo o que era bens de primeira necessidade escasseavam, dinheiro já não existia e nenhum de nós era propriamente punk, mesmo que a certa altura parecesse. No último dia, pela manhã, fizemos uma sopa com aquilo que restava e com a água do rio. Ainda hoje sinto o paladar.

Na viagem de comboio de Viana do Castelo até à Trofa finalmente aterrei alguma coisa. Viajei juntamente com um grande Amigo, que saiu em VN Famalicão, num vagão de mercadorias… sem bilhete, claro está. Chegado a casa, os meus pais olharam para mim e meteram às mãos à cabeça, tenho pena de não ter uma foto desse momento. Quando acordei, umas boas 16 ou 18 horas depois, a primeira coisa que me lembrei foi de guardar o bilhete do festival e a roupa que tinha fiel e ininterruptamente usado durante a aventura, principalmente a t-shirt do Nick Cave, mas a minha mãe tinha simplesmente deitado tudo ao lixo. Ainda hoje não lhe perdoei.

21 anos depois tenho a hipótese de recordar estes momentos, assim como outros que ficam para escrever noutra altura, e fazer uma pequena entrevista a organização do festival:


Mantemos vivas as palavras do Dr. Barge: “Cultura e juventude ao serviço de todos”.
– O que podemos esperar da edição 2017 de Vilar de Mouros?
Diogo Marques | Surprise & Expectation – Podemos esperar uma edição muito animada, alegre e divertida. O EDP Vilar de Mouros é assim, um encontro de amigos que gostam de música e que se juntam aos minhotos para comemorar a vida. Boa onda, boa comida e música excelente marca a edição de 2017.

– Quais foram os principais critérios para a selecção das bandas/projectos em cartaz?
Paulo Ventura | Metropolitana – Pretendemos que cada Artista que apresentamos tenha uma estória para contar a quem está ali para o ouvir (e ver). Porque esse Artista influenciou ou foi influenciado de forma incontornável. E nesse sentido, pretendemos construir um Festival com um Elenco onde as faixas etárias não importam, mas sim o desejo de receber as estórias e até de entender a história por via das canções. Foi neste pressuposto que o Festival de Vilar de Mouros começou pela mão do Dr. Barge. E é nesse pressuposto que convidamos os Artistas para o nosso Festival.

– Vilar de Mouros é uma marca muito forte no panorama festivaleiro nacional, qualquer festivaleiro que se preze tem histórias para contar de uma qualquer edição. Depois de vários interregnos, quais as perspectivas para um Vilar de Mouros anual?
Diogo Marques | Surprise & Expectation – O Nosso projecto tem a duração de 6 anos renováveis e 2018 já é uma realidade! Vamos para o 3º Ano consecutivo.

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Diogo Marques e Paulo Ventura | © Luis Valadares / Câmara Municipal de Caminha

– Estive presente na edição de 1996, numa altura em que já existia o Festival Paredes de Coura, mas essa edição de 1996 continua como um marco na história dos festivais de música de verão em território nacional, abrindo verdadeiramente as portas à sociedade portuguesa para uma nova realidade. Em que medida pode Vilar de Mouros continuar a destacar-se num sobrecarregado panorama de festivais de música de verão?
Diogo Marques | Surprise & ExpectationVilar de Mouros é único e terá sempre o seu espaço nesse panorama. As pessoas, as tradições, as histórias e o legado são as principais marcas do nosso festival. O Santuário da Música nacional, Vilar de Mouros, marca e marcou sempre tendências e é nisso que também trabalhamos. Este ano apostamos na gastronomia minhota, nos coretos e cantares, em zonas de leitura para famílias e cinema ao ar livre. Nas 3 praias fluviais, num camping mais alargado e em zonas de convívio amplas. Lançamos o Jogo “Vilar de Mouros”, acontecimento inédito, que irá ao longo do jogo contribuir para o enriquecimento da cultura musical e histórica do Festival Vilar de Mouros.

– Se Vilar de Mouros tivesse um lema, qual seria?
Paulo Ventura | Metropolitana – Mantemos vivas as palavras do Dr. Barge: “Cultura e juventude ao serviço de todos”. Este será sempre o nosso mote. Para nos guiar. E como gritou o Dr. Barge em 1982, queremos em Vilar de Mouros “… loucura, loucura controlada!

– O que é Irreversível? 
Paulo Ventura| Metropolitana – Este Festival é o Pai de todos os Festivais em Portugal (e eventualmente na Península Ibérica). Isso é irreversível.

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Vilar de Mouros 2016 © Luis Valadares / Câmara Municipal de Caminha

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Francisco Barros

- Realizador e locutor radiofónico nos 90´s com "Rockodromo" & Outros
- Proprietário da extinta "Crash-Discos".
- Vocalista em "Model".
- Passador de música e performer em "Robotic Sessions".
- Musico experimental & Ocasional
- Colaborador e Ex-colaborador em diversas publicações nacionais e locais.

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