Imagem: Diário de Notícias

Porque não quero ser mal-interpretado, faço desde já a minha declaração de interesses: o crescimento do turismo em Portugal é uma bênção, deve ser apoiado e bem planeado, e todos podemos ganhar com ele. Portugal é um país fantástico, com paisagens maravilhosas, gastronomia e vinhos de excelência, habitantes simpáticos e hospitaleiros, um clima fabuloso e, na sua esmagadora maioria, extremamente seguro. Tem uma história magnífica, de grandes feitos, descobertas e lutas, uma língua riquíssima, das mais belas e faladas no mundo, uma natureza diversificada e de uma beleza arrebatadora, do Douro Vinhateiro à Caldeira das Sete Cidades, e uma arquitectura tão requintada como singular, com ícones sem paralelo como o Palácio da Pena, as aldeias de Xisto ou a vila muralhada de Óbidos. Podia continuar nisto durante horas, mas parece-me desnecessário. Acho que deu para perceber.

Com tudo isto, e o muito mais que poderia ser dito, a que acresce o facto de Portugal ser um país acessível, principalmente quando comparado com a maioria dos seus parceiros europeus, é óbvio que não falta quem cá queira vir passear. Um tipo nórdico chega aqui em finais de Março, leva com 20 graus à sombra e experiência uma espécie de paraíso na Terra. E é tudo tão barato. Claro que Porto e Lisboa estão repletos de voos low cost e turistas. Bonito, barato, bom tempo e com a melhor comida e vinho do mundo? Até eu que moro a 20 minutos (sem trânsito) da Baixa do Porto já lá fui fazer turismo. E muitos de vocês também. Alguns de mais perto.

Qual é o problema?

imagem: sapo.pt

Entre outros que podem legitimamente ser enunciados, a mim parece-me que o mais grave está a ser sentido pelos habitantes do Porto e de Lisboa com baixos rendimentos, a viver em casas arrendadas com excelente potencial para o Booking e o Airbnb. E não está aqui em causa se o senhorio é uma besta sem escrúpulos ou um tipo impecável, se o inquilino é um parasita que não quer trabalhar ou uma mãe solteira, honesta e trabalhadora, a atravessar um momento de aperto financeiro. O que está em causa é o desespero de muitas famílias, com vidas ali enraizadas, que de repente são forçadas a pagar valores que não podem suportar e vêm a vida desmoronar-se, diante dos seus olhos. Segundo esta peça do DN, que cita números de duas das principais empresas do sector imobiliário, a Century 21 e a Imovirtual, o valor médio das rendas no Porto e em Lisboa subiu cerca de 200€, entre 2009 e 2017. É quase o dobro do valor, em apenas oito anos.

O turismo, apesar dos benefícios evidentes que tem para o país, desempenha um papel crucial em toda esta situação. O aumento brutal de turistas nas duas maiores cidades operou uma verdadeira revolução no sector do alojamento, com pequenos hotéis a surgir nos centros históricos das cidades e hostels a proliferar por todo o lado. Um T3 transforma-se numa casa com quatro quartos para arrendar, sendo a sala o quarto quarto, e pode facilmente render cinco e seis mil euros por mês. É claro que as rendas disparam. É claro que milhares de portuenses e lisboetas estão e vão continuar a ser expulsos da cidade e empurrados para a periferia, levando ao aumento das rendas também aí. É claro que tudo isto vai pressionar ainda mais a periferia, já tão carente e com tantas necessidades. Vai separar famílias e amigos, vai destruir costumes e práticas comunitárias, vai descaracterizar as cidades. E nós vamos ganhar muito dinheiro, quer dizer, alguns de nós pelo menos vão, mas não passaremos de espectadores que entram para servir e saem para ir dormir a suas casas, deixando para trás uma cidade que já não é sua.

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João Mendes

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