Saiu de cima do outro devagar, saiu de dentro dele contrariado, tinham feito um amor alongado, tinham compartilhado seus corpos de forma egoísta, como se quisessem engolir-se mutuamente; para Fulano, aquele era um momento há muito desejado, esperado e temido. Estava socialmente restringido ao amor pelas mulheres, àquelas sedas desconhecidas, àqueles corpos diferentes do seu, e, mais que tudo à necessidade de suprir as necessidades que ele mesmo jamais conheceria, por serem as delas, e ele, como todo o homem, estava proibido de penetrar… podia penetrar seus corpos, nunca lhes saberia os desejos, ainda pior, jamais lhes conheceria a saciedade. Tinha aprendido da sociedade que o único amor possível, o aceitável, era entre os corpos diferentes, que só na heterogeneidade seria feliz, e, por muito tempo, tempo demais, sabia-o agora… tinha perdido tempo, tempo demais, a fugir de si mesmo e a fugir de seu próprio medo. Fugir por uma estrada fácil e recta! Uma estrada daquelas monótonas, que se apanha todos os dias, automaticamente. Monótonas e obrigatórias, rectas, sem desvios, sem curvas ou alternativas… onde se passa pelos outros, acelerados, que a seguem como nós, convictos de que é a única, a certa, a que todos tomam como certa… que só alguns abandonam por outras direcções. Mudam de objectivo, mesmo que todas as placas, todos os sinais, todas as beatas, tudo diga que é aquela. Fulano sabe que ela existe, mas já não está tão certo de que seja a melhor, ou quem sabe até a mais fiável. Sabe, sim, que é depois de conhecer as vias alternativas que ficou mais completo, mais homem, mais humano. Isto é certo… Sabia, agora, que o amor é um sentimento, uma coisa que se guarda para nós mesmos, que não se é capaz de dividir com um outro… Olhou para Beltrano, deitado de bruços na cama, com a pele arrepiada, um corpo masculino e inconfundível, como o seu, com seus cheiros secretos e seus pelos… seus apêndices. Achava, agora, estranho, nunca ter-se preocupado com aquilo, com a eterna questão de sentir-se ou não atraído por um corpo igual ao dele. Com desejos e necessidades que ele conhece tão bem, assim como conhece seu próprio corpo, Fulano sabia de cor o corpo de Beltrano, um corpo como o dele… Agora, depois de desfrutá-lo, sentia-se completo, sentia-se um homem sem falhas; Tinha estado dentro dele e tinha-o tido dentro de si. Releu, naquela pele, o texto das horas que passaram, juntos, a amar-se. Constatou, para si mesmo, sem qualquer ponta de estranhamento, que sempre desejara, secretamente, um corpo igual ao seu para dividir sensações. Constatou, sem grandes sustos, a condição básica e plurissexual da existência; não estava a abrir mão dos corpos diferentes, estava a abrir o leque de suas possibilidades. Deitou-se, outra vez, ao lado daquele corpo tão igual ao seu e decidiu que o amava, sem culpas e sem pecados e, melhor ainda, sem exclusividade. Virou-se e disse-lhe ao ouvido: – “Até hoje, nunca tinha tido amor por outro homem!…”

Comentários



PAR

Sou muitos por cento H2O o que quer dizer que fervo a 100 e congelo a zero... tenho muito para dizer mas só digo quando quero.

Publicação Anterior

Wovenhand de regresso a Portugal

Proxima Publicação

Bela Raridade