Directamente da nossa base secreta num local ultra secreto envolto no maior dos secretismos, inicio a minha intervenção neste projecto disponibilizando ao caro leitor uma comunicação entre um boy e o quartel-general do regime, interceptada esta tarde pelo SIRAP (Sistema de Informação da Resistência Anti-Panela). Voltarei em breve com mais notícias do submundo anti-regime. A revolução é Irreversível. Nada será como dantes.

“Querido sistema,

foto: jppi @ morguefile.com

foto: jppi @ morguefile.com

Escrevo-te sob intenso e prolongado desgaste. Sei que aceitei vender-me a quem, por dominar o regime, está condenado a vencer e a perpetuar a opressão pela qual nos batemos mas, de há alguns meses para cá, a quantidade de comprimidos que venho tomando para conseguir adormecer um par de horas está a afectar as minhas funções. Confesso que tenho sentido muitas dificuldades para encontrar argumentos que me permitam defender os teus interesses partidários e financeiros, que por vezes não compreendo, nem mesmo recorrendo aos truques de retórica populista e demagógica que me ensinaste nas universidades de propaganda quando eu era ainda um adolescente – mas já óptimo abanador de bandeiras e angariador de vassalos – sempre focado nos nossos pares do outro lado do bloco central para dar força à simulação do atrito que entre nós, como sabes, é meramente ilusório.

Não nego que tem sido uma aventura entusiasmante. Quando a blogosfera deixou de ser suficiente até nos arranjaste um jornal e um punhado de programas televisivos onde podemos explorar toda a doutrina que nos transmitiste e através da qual a nossa subsistência está garantida, ainda que alguns de nós estejam também pendurados na longa teta do estado enquanto criticamos toda a concorrência que ousa, tal como nós, pendurar-se na mesma teta. Mas a verdade é que se tornou mais difícil de viver com o crescente aumento da pobreza, das desigualdades gritantes e com as nossas caras permanentemente estampadas nas capas de jornais por coisas tão insignificantes como um favor para um amigo ou uma pequena fuga aos impostos. Eu sei que alguns de nós vivem bem com o mal dos outros mas a réstia de humanidade que existe em mim coloca-me ainda algumas reticências quanto ao sofrimento desnecessário. As pessoas olham-me de lado e tornou-se impossível ir a um restaurante ou ao supermercado sem ser insultado. Começo a achar que mereço. Ou talvez esteja apenas a passar um momento de negação. Sempre soube ao que vinha.

Às vezes questiono-me sobre o que acontecerá no dia em que as pessoas tomarem consciência e perceberem aquilo que somos. Que os esquemas que usamos começam nas concelhias onde nos confrontamos de forma vil e sem escrúpulos para iniciar a subida da escada do poder. Que pagamos cotas em atraso de militantes que nos podem ser úteis com dinheiro obtido de forma obscura. Que mentimos deliberadamente. Que alinhamos em actos subversivos de política mesquinha com panfletos anónimos, notícias orquestradas cirurgicamente na imprensa que nos serve e ataques pessoais para desviar a atenção das questões relevantes. Que vasculhamos a vida pessoal dos nossos oponentes e que conseguimos descer baixo o suficiente para a instrumentalizar. Que passamos informação confidencial na medida dos nossos interesses para que os jornais nos sirvam, consciente ou inconscientemente. Que “imparcialidade” é um termo que não nos diz absolutamente nada. Temo que, no dia que tudo isto for absorvido, sejamos alvo de uma autêntica caça às bruxas. Temo por mim e pela minha família.

Ainda assim, cá estarei para te servir enquanto for útil, sempre na esperança de continuar a receber cadeiras cada vez mais confortáveis que me permitam olhar o sofrimento dos outros com desdém porque, convenhamos, não me interessa minimamente que a ralé sofra. Tal como me ensinaste, é impossível levar o teu plano a cabo sem danos colaterais e, para o implementar, é fundamental continuar a reduzir o máximo de números à indigência. Menos educação, menos cuidados médicos, mais preocupação com a sobrevivência diária e menos tempo para pensar são condições sem as quais dificilmente conseguiremos continuar a manter a ralé ocupada enquanto materializamos o nosso desígnio totalitário disfarçado de democracia representativa. E como eles tardam em perceber, o tempo corre a nosso favor. Vou fazer um esforço por ti e pela supremacia da nossa casta, na qual ainda acredito.

Manda quem pode, obedece quem deve.

Boy”

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Zacarias Orwell

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