“Ao som de uma melodia cerimoniosa e inspiradora, recupero a consciência. Abro os olhos, estou sentado num cockpit. Lá fora, uma paisagem estranha de contornos alienígenas confirma que não sei onde estou, nem me lembro aliás de quem sou, ou o que aconteceu… Com algum esforço, arrasto-me para fora da cabine e deparo-me com um cenário que fala por si, embora as respostas apenas levantem mais questões. Aparentemente, sobrevivi ao despenhamento da – minha, presumo – nave espacial, os destroços estão por todo o lado. Os danos são substanciais, e sem uma reparação não conseguirei sair daqui”. Assim começa “No Man’s Sky“, o mais polémico videojogo de 2016. no-mans-sky-update

Anos de um desenvolvimento envolto em mistério ajudaram a criar expectativas estratosféricas, fruto também de uma mescla de questões evitadas, meias respostas, muitas promessas ambiciosas e um discurso apaixonante, enigmático e carismático de Sean Murray, o líder e porta-voz da Hello Games. O lançamento foi o mais conturbado que se poderia ter esperado. Principalmente, porque o resultado final não foi a materialização do ideal perfeito que as suas expectativas irrealistas haviam criado nas suas mentes. Mas também porque várias características-chave estavam realmente ausentes, promessas quebradas que levaram a acusações de desonestidade e publicidade enganosa. Esta situação levou a uma discrepância de opiniões inédita na história dos videojogos, com um fosso profundo a dividir a relativa minoria muito feliz com o que obtivera, de uma maioria amargamente insatisfeita com o produto. Assim se provou que para além de algumas falhas inegáveis – que foram entretanto corrigidas através de actualizações – e do falhanço em cumprir determinadas promessas, “No Man’s Sky” nunca seria o blockbuster mainstream, agradável ao público em geral que a Sony e a Hello Games tentaram pintar, mas sim um jogo destinado a uma minoria e que deveria ter sido publicitado como tal.

Sean Murray

Sean Murray

A ausência de multiplayer foi a primeira vítima, e caiu com estrondo. Estimativas, que ainda ninguém provou estarem erradas, apontavam uma percentagem ínfima de 0.00000271% de dois jogadores se encontrarem no mesmo local, graças à vastidão de uma galáxia virtual com 18,446,744,073,709,551,616 planetas. Se a isso juntarmos o facto de todos os jogadores começarem espalhados pelos confins da galáxia, percebemos que seria algo quase impossível, certo? Errado, pois aconteceu mesmo, poucas horas depois do lançamento do jogo dois jogadores aperceberam-se de que o o acaso mais improvável os havia atirado a ambos para zonas relativamente próximas do universo! Foi uma questão de entrarem em contacto e combinarem um encontro num planeta e local específicos. A internet parou para ver o primeiro contacto cósmico virtual, mas nada aconteceu pois eles não se viam um ao outro. Estavam ambos no mesmo local, mas as condições de tempo e clima divergiam, o que sugeria um universo que era partilhado apenas nos dados e estatísticas, e não em tempo real com as interações a revelarem-se impossíveis.
O que é afinal “No Man’s Sky”?
É basicamente um jogo de exploração, com uma forte componente de sobrevivência, o que se traduz numa contínua necessidade de procura e recolha de recursos para fabricar, melhorar e reabastecer os nossos equipamentos e acessórios. A primeira hora é a mais agitada e objectiva, pois lutamos contra os elementos (dependendo do planeta que nos calhou na sorte!) sem as condições apropriadas, a única esperança reside em seguir as instruções que nos são facultadas. Gradualmente, e conforme vamos aperfeiçoando o nosso equipamento, a questão da sobrevivência vai sendo menos intrusiva, passando de uma necessidade básica a uma espreitadela ocasional. Não tardará, as reparações estarão concluídas e estaremos aptos a deixar o planeta e navegar o espaço mais próximo. É aí que os horizontes se alargam, e começamos a ter uma pequena ideia da jornada que nos espera.
Escrever uma crítica a “No Man’s Sky” não é tarefa fácil para mim. Reconheço a validade de muitas queixas, pois os factos não mentem e o mesmo não se poderá dizer de algumas promessas de Sean Murray, e estou solidário com vários críticos do jogo. Mas por outro lado, eu estou bastante satisfeito com o resultado final, pois correspondeu às minhas expectativas pessoais, recebi algo que deu prioridade aos pontos que eu queria ver implementados. Pontos esses que são a abordagem que privilegia a exploração em detrimento do combate, uma narrativa discreta mas ambiciosa, uma descoberta infinita que surpreende quando menos se espera. A isto se junta uma brilhante direcção artística com os seus visuais retro futuristas, recolhendo influências no imaginário da ficção científica das décadas de 70 e 80. A sensação de encantamento solitário é reforçada pela banda sonora minimalista, encaixa bastante bem nos temas filosóficos e visuais épicos. Foram imensas horas a percorrer a galáxia, dezenas de sistemas solares visitados, centenas de planetas e luas exploradas, inúmeras espécies descobertas e catalogadas, interagi com raças alienígenas, exemplos de inteligência artificial e entidades cósmicas para além da compreensão. Estou ainda a uns longínquos 165.000 anos-luz do centro da galáxia, e muitos dos mistérios mantêm-se como tal.

“No Man’s Sky” é um daqueles produtos que eu não posso honestamente recomendar sem grandes reservas, numa era onde a maioria dos jogadores esperam e exigem certos clichés, objectivos, mecânicas e facilitismos ausentes de um jogo críptico e vago como este. No entanto, posso e afirmo com toda a certeza que “No Man’s Sky” é para mim uma das melhores experiências virtuais que já tive oportunidade de usufruir, algo pelo qual esperei toda a minha vida, um jogo que materializasse os sonhos e o imaginário da minha infância e juventude e me oferecesse a oportunidade de interagir com eles! O derradeiro escape virtual para quem aprecia ficção/fantasia científica dos anos 70 e 80, para quem está disposto a deixar que a sua imaginação ligue os pontos deixados em claro pela abordagem subjectiva e desorientadora.
Em resumo, se eu pudesse ter apenas um jogo à minha disposição, “No Man’s Sky” seria o seu nome!

Comentários



Luis Costa

Não mais deixarei intocável a minha divindade.
Ficarei à mercê do tenebroso juízo e assustadora pena, de todos quantos quiserem vislumbrar, porventura explorar, as fraquezas e timidez de um Deus da guerra, cansado de inconscientemente fugir da paz sempre adiada.
De futuro, caminharei ao lado do comum dos mortais.

Publicação Anterior

O Teu Sorriso Arco-Íris

Proxima Publicação

Smed Fest 2016