Os programas que enchem as televisões durante a manhã e o inicio da tarde são fonte que jorra litros e litros de comédia. Não sendo eu um consumidor destes formatos, até porque quando são transmitidos estou a trabalhar, adoro estes momentos memoráveis que envolvem profissionais do oculto, malta que se dedica a enganar terceiros com búzios, cartas e até – pasmem-se – varinhas mágicas.

Começando precisamente pelas varinhas mágicas, esses belos objectos do nosso imaginário harrypotteriano, escrevi há umas semanas no Aventar sobre a senhora dona Maria Helena, uma profissional do ramo que, em estreia absoluta na televisão portuguesa, curou uma qualquer maleita, por telefone e em directo na SIC, usando para isso a sua varinha mágica. Foi um belo momento de televisão, meteu Nossa Senhora de Fátima ao barulho e colocou a IURD em sentido que o mercado está em expansão mas ainda não é assim tão grande para tantas seitas.

Hoje deparei-me com mais um destes momentos, que voltou a meter Nossa Senhora de Fátima ao barulho mas desta vez sem varinha mágica. Foi num desses programas, desta feita na CMTV (para visualização integral da intervenção do Pe Mário de Oliveira seguir este link), onde os apresentadores Nuno Graciano e Maya tinham consigo o simpático padre Mário de Oliveira, que escreveu recentemente um livro intitulado “Fátima S.A.” e que tem a particularidade de ter genitália suficiente para chamar os bois pelos nomes, a começar pelo mais óbvio e trivial: Fátima, goste-se ou não, é em parte um negócio. E digo em parte porque para os crentes é também espiritualidade e devoção, conceitos com os quais podemos ou não concordar. Mas existe ali um negócio de proporções consideráveis que não pode ser negado e relativamente ao qual não farei juízos de valor porque aqui a questão é outra.

Portanto aquilo que me traz aqui não é o capitalismo católico apostólico romano. A igreja sediada no Vaticano, como qualquer instituição, deve financiar-se de alguma forma. E com esta crise, os cestos de esmolas devem estar cada vez mais vazios. O que me leva a escrever estas linhas prende-se com a postura da apresentadora, que roçou permanentemente o ridículo. Entre interrupções fora de tempo, perguntas absurdas e olhares de altivez e repreensão perante este padre bem-disposto que teve a coragem de falar com uma abertura fantástica mas sem negar as suas convicções religiosas, Mário de Oliveira tocou numa ferida difícil para os católicos mais conservadores ao negar as aparições de Fátima. Blasfémia!

Perante a postura progressista deste padre, a taróloga Maya voltou a interromper fora de tempo a intervenção do seu convidado para despejar o seguinte vómito:

“Oh senhor padre eu peço desculpa, eu simpatizo muito consigo, mas não se ria tanto de Fátima que me está a ofender tá bem? Portanto tente-me explicar isso de uma forma com menos riso tá bem? O senhor pode ser simpático mas esse riso de Fátima incomoda-me tá bem?”

Portanto esta personagem, que dedica parte do sem tempo a iludir pessoas com cartas, búzios e merdas, tem a distinta lata de “puxar as orelhas” ao seu convidado apenas porque ele não tem a mesma opinião que ela e como tal esquece o profissionalismo (se alguma vez soube o que isso era) e faz esta intervenção idiota. Eu sei que isto aconteceu na CMTV mas será que ela não percebe que lhe compete ser isenta e deixar as suas convicções pessoais fora da discussão? “Portanto tente-me explicar isso de uma forma com menos riso“??? Mas é esta lançadora de cartas que vai decidir como o seu convidado apresenta as suas opiniões? Enfim, saudosismo salazarista misturado com tiques parolos de gente demasiadamente enraizada no jet set foleiro deste país.

É admirável a cara de pau de pessoas que como a senhora dona Maya se acham no direito de enganar fracos de espírito com búzios e cartas e rosnar a quem põe em causa algo tão questionável como uma suposta aparição vista por três miúdos que, com todo o respeito pela fé alheia, o mais certo é nunca ter acontecido. Mas a senhora está tão habituada aos seus embustes que não admite sequer que outros embustes semelhantes ao dela possam ser questionados. Um falso conservadorismo provinciano com o qual procura, imagino, limpar a imagem de vendedora de ilusões junto do grande público, que o negócio do embuste, como todos os outros, atravessa momentos difíceis.

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João Mendes

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