Salvador Sobral conquistou Portugal, a Europa e o mundo com a sua interpretação de “Amar pelos dois”.
Esta apresentação de Portugal na Eurovisão foi diferente de todas as outras, mas com uma semelhança comparativamente àquela que é a minha interpretação predilecta no certame; “Desfolhada Portuguesa” de Simone de Oliveira, em 1969. Simone levou-se, a si, para cima do palco, não uma personagem, apenas a sua garra.

(…) não podia haver melhor statement do que o proferido pelo próprio: “MUSIC IS NOT FIREWORKS, MUSIC IS FEELING”. 
Em contrapartida, a meu ver, distancia-se imenso da pior participação de Portugal na Eurovisão, em 2014, com “Quero ser tua”, interpretada por Suzy. Aí, claramente esta questão da diversidade terá sido muito mal interpretada. Uma música pobre em espírito, com ritmos africanos (nada português), com um senhor a tocar djambê com as vestes típicas (que fez lembrar uma certa exposição sobre as colónias portuguesas durante o regime salazarista), própria de uma festa de verão d`aldeia.
Para todos aqueles que diziam que a música de Salvador Sobral não era apropriada para o festival, devido à sua simplicidade, não podia haver melhor statement do que o proferido pelo próprio: “MUSIC IS NOT FIREWORKS, MUSIC IS FEELING”.

Ao ouvir a música pela primeira vez, de imediato me pareceu que se tratava de um tema que encaixaria perfeitamente num filme da Disney. Mas isto não tem um sentido pejorativo. Na verdade, este apelo ao sentimento de uma forma tão doce e simples podia resultar numa vitória por contraponto visto que, no geral, as apostas são em performances com mais pompa e circunstância do que num carnaval brasileiro.

Salvador levou-se, a si, como Simone, com fortes mensagens sobre o que a música se devia tornar (…)
A verdade é que de cada vez que Salvador cantava o tema, cantava-o como lhe ia na alma e apresentava-se genuíno, sem filtros, a cantar a música pela música e não por uma ambição cega de vitória e fama. Uma canção de Luísa Sobral que, com uma letra simples mas muito bem pensada, uma melodia fácil de entrar no ouvido mas “straight to the heart”, se apresentava como uma perfeita plataforma para a magia que o cantor lhe emprestava. Com sentimento, com alma, com tudo o que uma música deve ser.

A questão de o tema ser cantado em Português poderia ser um problema, mas não é isto a diversidade?! Cada país levar um pouco do que é seu?! Salvador levou-se, a si, como Simone, com fortes mensagens sobre o que a música se devia tornar, assim como relativamente a questões humanitárias, nomeadamente, a crise dos refugiados.
(E)levou Portugal, rompendo recordes, quer nacionais quer internacionais, com a mais alta pontuação de sempre na história da Eurovisão.
Parabéns Salvador!!! E obrigada por fazeres da música o que ela deve ser, com conteúdo e sentimento, o teu coração pode amar por milhões!

Obrigada Luísa, Obrigada Salvador.

Salvador Sobral  – Ilustração © Mal mequer

 

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