Não são favas contadas, mas a possibilidade de Marcelo Rebelo de Sousa vencer as presidenciais apresenta-se-nos como uma quase inevitabilidade. Talvez consiga mesmo a proeza de vencer o escrutínio à primeira volta, pelo menos a julgar pela sondagem da Católica apresentada na passada semana. O próprio parece não ter dúvidas.

E porquê? Falta de adversários à altura? Esquerda fracturada por múltiplas candidaturas? Nada disso. A grande vantagem de Marcelo é outra, até porque o histórico político do professor-comentador não deixou grandes memórias, tendo sido derrotado por Jorge Sampaio na corrida à Câmara Municipal de Lisboa em 1990 e apeado da liderança do PSD em 1999, depois de 3 anos como líder discreto que viabilizou 3 orçamentos de Estado a António Guterres, substituído por Durão Barroso que haveria de disputar (e perder) as Legislativas de 99.

Constata-se que Marcelo, o político, não foi particularmente bem-sucedido. O comentador, porém, é um ícone nacional. Durante vários anos tem sido um dos principais fazedores de opinião, na TVI, RTP e novamente na TVI e, opiniões e ideologias à parte, a imagem que se foi criando na sociedade portuguesa foi a de uma espécie de arauto da verdade absoluta, isento e incorruptível – pese embora os fortes laços de amizade que o unem a Ricardo Salgado, que Marcelo insiste de forma estratégica e muito inteligente em reiterar – que é percepcionado como uma das vozes da razão que ilumina o país e sugere as mais variadas leituras aos portugueses. A penetração do comentador Marcelo na sociedade portuguesa é tal que grande parte da comunicação social já o dá como vencedor. O facto de ter recentemente afirmado que abdicaria de grande parte da propaganda política que estas coisas envolvem, juntamente com o facto de se ter mostrado crítico da gestão da crise política pós-Legislativas feita por Cavaco Silva, mostrando-se ainda bastante tolerante para com a solução encontrada à esquerda permite a Marcelo congregar a direita, sem outro candidato que não seja o professor, incluindo o que resta do so called centro-direita moderado, e mesmo alguma esquerda que vê em Marcelo uma alternativa às figuras pouco mediáticas que a esquerda vem apresentando.

Qual é então a vantagem do professor Marcelo? É a televisão. Qual imprensa escrita, quais redes sociais! A televisão, particularmente a generalista, ainda é o meio de comunicação com maior penetração na sociedade portuguesa. E Marcelo é o mais reputado comentador português, há 15 anos em horário nobre nas casas de milhões de portugueses, sempre a par de todo e qualquer assunto, com aquele semblante simpático e iluminado de quem desceu à terra para esclarecer a opinião pública, capaz de malhar no próprio partido sempre que lhe apetece. Cartazes e outdoors para quê? Depois de décadas de campanha em nome próprio, sem custos para o utilizador, haverá alguém que se meta entre Marcelo e o Palácio de Belém?

Quem disse que a televisão estava a morrer?

Comentários



João Mendes

Publicação Anterior

Mécanosphère @ Cave 45 - Porto

Proxima Publicação

Porto = Aldeia