Observo os movimentos da tarde com o mesmo sentido de quem acorda e se senta na sanita; olhos sem pestanejar, pensamento vazio, dedo a escarafunchar o nariz. Moças de olhar esgazeado entram em casa com a mesma pressa com que saem. Os pais estão na fábrica e elas ganham mais que os pais.
A pressa sempre foi inimiga da perfeição; saia amarrotada, botões da camisa mal casados. Haverá algum gozo neste acto. Pelo menos para os meus pensamentos voyeur. Sinto que me abandona a idade e a tarde avança sem que nada mais aos meus olhos se apresente que não um espetáculo quotidiano, sobretudo quotidiano e a cores. Ainda se fosse a preto e branco, assistiria a um filme mudo e guardaria o bilhete na mesinha de cabeceira.
Tudo parece simples. E é de facto. O acto simples e inconsciente. Pelo menos era assim que eu me sentia, até aparecer o novo acordo ortográfico. Sei bem que deveria tirar os 3 c´s até então, mas tenho medo de tirar o íman aos c´s sem que antes lhe faça cortejo e ofereça a frô luminosa. O paladar dos c´s. Sequência de actos. Enfim, pago o café e diante de mim já todos perderam a sede a percorrer o que só a sede sabe percorrer. Até mesmo as saias amarrotadas e as camisas mal casadas. Agarrados ao tempo. A poeira não está mais suspensa aqui, nem a carícia da prata, só o lábio da morte pronta a sugar até ao tutano os movimentos tardios nesta tarde que já vai tarde.Levanto-me para dar uma mija opaca.
Vem-me à boca o sabor da existência e como último pensamento, este que escrevi para os meus amigos de taberna e aletria uma vez por ano, que tocam por prazer: Nós vamos todos falecer, vamos todos bater a bota, mas antes de morrer, vamos dar uma valente foda. Certamente, não soa bem em português, nem a uma mulher, mas visto que a minha língua não sendo universal porque só se passeia por recantos caseiros, e tenho uma camada interior de homem, ponde isto em inglês, que a tensão não é tão grande e um fuck em música até dá classe.
Não se passa nada, soubesse eu bordar como a minha avó gostava que eu soubesse. Mas a minha vontade era outra. Mortalhas antigas, autoclismo por puxar, a pálida imagem no espelho reles que me observa. O gesto impõe-se. Assim como o grotesco banal das imagens lá atrás. Entretanto, durmo com o Amor todas as noites. Tem o mesmo cheiro de há 4 anos atrás. Entretanto, o Amor visita-me antes que a noite se me transfigure em paisagem abstracta e obsoleta.
Ele molda-me como se molda o barro no 5ºano. Entretanto, penso, que os meus dedos amarelos do mel e do tabaco, sabem bem a sua função. Entretanto, vou almoçar, que afinal isto tudo se passou de manhã. E de manhã todos os gatos são pardeijos pousados na morrinhice, os pensamentos são plafons esgotados e o meu rosto é uma cara de cú à paisana.
Sim sim, a vossa pergunta tem toda a razão de ser. O que é que isto interessa? Nada.
Só o contacto do limpa chaminés sem sujar, espalhados pelos postes.

Comentários



Véronique S.

Tem os braços onde deveria ter as orelhas. Tem o coração onde deveria ter os olhos. Já as entranhas, costuma adormecer a mexer nelas. Qual criança que brinca com os cabelos até o sono à visitar.

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