Kubik, um dos mais geniais criadores de música em Portugal, é um nome que permanece ainda na obscuridade e nas profundezas da maior parte das play-lists. Nem se trata do “grande público”, falo das franjas e tribos menos atentas.

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foto: facebook oficial Kubik

As criações musicais de Kubik são muitas vezes exercícios de decomposição musical, uma dissecação sonora com diferentes camadas, cheia de complexidades rítmicas e buscas aparentemente constantes por mais e diferentes concepções e conceitos; mas ao mesmo tempo consegue produzir música compreensível, genuína, muitas vezes simples, e despretensiosa. São as suas diferentes apresentações em palco que melhor demonstram a sua capacidade de montar e desmontar, de reinventar, de cortar e colar, de romper com os limites.

O Irreversível queria conhecer melhor o universo onde se move Victor Afonso aka Kubik, e o resultado é uma curta, mas muito interessante entrevista ao criativo malabarista sonoro :

Quem é ou, o que é, "Kubik"?
Kubik é um projecto musical da minha autoria que já tem mais de 15 anos de existência. As primeiras experiências foram em 1998 com uma electrónica ainda algo básica, muito ligada ao som da altura, o drum’n’bass. Ao longo dos anos fui aperfeiçoando a minha sonoridade até chegar ao primeiro álbum de originais, em 2001, com o disco de estreia “Oblique Musique” que, apesar da sua veia experimental, foi – para minha surpresa – fortemente elogiado pela comunicação social especializada em Portugal. Esse disco chegou aos ouvidos do Mike Patton que me convidou, três anos mais tarde, a tocar na primeira parte do concerto dos Fantômas na Aula Magna. Foi um dos momentos mais incríveis que tive em todo o meu percurso musical. A identidade Kubik assume-se como um projecto de música fragmentária, com base numa estética de reciclagem sonora, de cut’n’paste minuciosa, onde vou buscar influência aos mais variados géneros musicais: do rock ao jazz, da world music à electrónica experimenta, etc. Depois editei mais dois álbuns: “Metamorphosia” (2005) e “Psicotic Jazz Hall” (2011) e pelo meio vários EP com edição na internet. Especializei-me na composição de bandas sonoras originais para cinema mudo, projecto que apresentei ao vivo um pouco por todo o lado.
O que encontramos de Vitor Afonso em Kubik?
No fundo, Victor Afonso é Kubik e vice-versa. São duas identidades indissociáveis e posso assumir que Kubik é um alter-ego, uma personagem com máscara por detrás de Victor Afonso. Não quer dizer que me esconda por trás desta máscara, apenas que representa a minha identidade artística. Nada mais.
O que te motiva para a criação musical / audio-visual? E essa motivação continua presente?
Sou um amante de música e de cinema (imagens), logo a ligação entre as duas coisas veio com naturalidade. Estudei história da música, e em particular, a história da música para filmes desde o cinema mudo até aos nossos dias. E a verdade é que na música de Kubik há muitas influências de música para cinema, nomeadamente dos meus compositores favoritos como Danny Elfman, Bernard Herrmann ou Ennio Morricone. Por isso desenvolvi vários projectos em que musiquei filmes mudos históricos, como “Un Chien Andalou” (1928) de Luis Buñuel/Salvador Dali, “Entr’Acte” (1924) de René Clair ou “Felicidade” (1934) de Alexander Medvedkine. Nos últimos anos dediquei-me também num projecto singular que foi “Movie Poster”, no qual fiz música para 200 poster clássicos de vários géneros cinematográficos, como o western, o terror, a ficção científica, a comédia ou o policial.
Vivendo tu na cidade da Guarda, estando fisicamente longe dos maiores centros urbanos nacionais, sentes que isso é limitativo para o reconhecimento e desenvolvimento do teu trabalho, nomeadamente no que diz respeito a concertos/apresentações?
Para ser honesto, no início do meu trabalho achava que não era uma limitação, porque foram anos muito activos e produtivos, era convidado pelos centros do litoral com frequência para tocar e apresentar o meu trabalho. Nunca senti esse isolamento geográfico. Porém, nos últimos anos tenho sentido mais essa condicionante, e sinto que viver no interior do país e longe dos grandes centros acaba por ser limitativo. Mas é algo que não me preocupa porque a música não é a minha profissão, vou fazendo projectos à medida que vão aparecendo e há muita gente de Lisboa e Porto que conhece o meu trabalho. Aliás, ainda recentemente recebi um convite de um coreógrafo do Porto para fazer a música original para um bailado/performance. Acho que as fronteiras geográficas se esbateram num mundo cada vez mais global.
De que forma avalias o teu percurso musical? Existem ambições? E que objectivos pessoais alcançaste?
O meu percurso musical (que considero diferente de “carreira musical”) tem sido feito pacificamente ao longo de 15 anos de actividade. É um percurso do qual me orgulho porque modéstia à parte, julgo que Kubik marcou a música electrónica em Portugal, e nem sou eu que o digo, mas sim críticos e público. Não é um percurso regular mas é contínuo, sem grandes ambições, mas com a firme convicção que faço o que gosto sem pressões de ordem comercial ou financeira. Mesmo que não faça mais nada, considero que já alcancei os meus objectivos: editei três álbuns muito bem recebidos pelo público e pela crítica especializada; fartei-me de dar concertos, tive o reconhecimento de uma figura musical mundial como o Mike Patton, dediquei-me ao cinema que é outra das minhas paixões e a fazer bandas sonoras para teatro, bailado e trabalhos de sonoplastia. O meu percurso, no fundo, está feito e com bons resultados. Mas o percurso não pára por aqui, vou continuar a trabalhar para desenvolver a linguagem estética de Kubik.

O insuspeito Mike Patton comentou acerca do experimentalista chefe de orquestra de apenas 1 elemento: “Kubik is an amazing artist. He is moving into a special and particular universe. He has fantastic records and a fantastic music… He’s a monster!”

Ficamos irreversivelmente a aguardar um novo trabalho, novas apresentações e novos projectos, de Kubik.

facebook oficial @ Kubik
Victor Afonso @ blogspot

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Francisco Barros

- Realizador e locutor radiofónico nos 90´s com "Rockodromo" & Outros
- Proprietário da extinta "Crash-Discos".
- Vocalista em "Model".
- Passador de música e performer em "Robotic Sessions".
- Musico experimental & Ocasional
- Colaborador e Ex-colaborador em diversas publicações nacionais e locais.

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