Chega como convidado, sai como amigo!

Dou graças a Deus todos os dias, por o meu país não ter petróleo!”- foi assim que em Madaba, já no último dia de viagem, o Mohammed, nome tão comum por estes lados, se despedia de nós, soltando aquele sorriso tão particular e sincero, com uns dentes que lhe saiam da boca de forma desproporcional. Aquele sorriso que nos passa confiança, humildade, hospitalidade e um conforto como só o povo do Médio Oriente consegue. Indescritível e reconfortante! Duas semanas haviam passado e o percurso por mim escolhido, tinha-nos levado da capital à fronteira com a Arábia Saudita e, dali, percorrido a mítica Kings Way, num ziguezaguear de paisagens tons de terra seca, cortadas por pequenos nichos de um verde que tenta sobreviver.

Quando pensamos na Jordânia, a nossa imaginação leva-nos obrigatoriamente à grande capital dos Nabateus: Petra.
Há locais espalhados pelo mundo – Persépolis, no Irão, o Taj Mahal, na Índia ou as Pirâmides de Gizé, no Egipto (só para dar três exemplos) – que são grandes não pela arquitectura que têm, mas pela história que carregam: o amor, a democracia, o comércio, a mudança que trouxeram e poucas são as pessoas que, quando as visitam, sentem o seu peso histórico, trocando-o por mais uma selfie que, mais tarde, será exibida numa qualquer rede social como mais um “marco” alcançado.

“Passar então uma noite nesta imensidão de vazio, com um céu tão gigante quanto as estrelas que nele cabem, é daqueles momentos que nos ficam gravados para sempre.”
O mais importante é, porém, esquecido. Petra, é um desses locais. Transformou-se ao longo dos anos naquilo que intitulo como um shopping cultural e são raros os casos que percebem a sua dimensão na história da humanidade. Será então repetitivo falar de Petra, sendo um lugar tão óbvio e dos únicos que associamos ao país.

Wadi Rum, um dos desertos mais bonitos e mágicos do mundo, outrora coberto pelo mar, é também um desses exemplos. As formações arenosas que crescem terra acima, muitas delas acima dos 500 metros, empurradas por dunas em tons de vermelho, branco do mais puro que existe e castanho ferro, são uma das experiências mais marcantes de uma viagem ao Reino Haxemita da Jordânia.

Caminhando sobre o deserto branco, em Wadi Rum - ©Pedro Costa

Caminhando sobre o deserto branco, em Wadi Rum – ©Pedro Costa

Passar então uma noite nesta imensidão de vazio, com um céu tão gigante quanto as estrelas que nele cabem, é daqueles momentos que nos ficam gravados para sempre. A maioria das pessoas escolhe entrar na reserva natural com um dos jipes alugados à entrada e fazer os highlights, mas é na extensão da nossa estadia que o deserto ganha sentido, se revela, nos abraça!

“É o pôr-do-sol que acontece exactamente no rasgar destas duas montanhas, que nos proporciona ao longe, uma vista espectacular sobre Wadi Araba.”
A viagem de Exploração da Jordânia com um restrito grupo de amigos da Landescape, permitiu-me concluir a ideia que já tinha. Que a Jordânia – país a que regressei depois de uma primeira visita em 2011 quando o atravessei de bicicleta – é, sem dúvida alguma, muito mais do que Petra e Wadi Rum. É a visão de Moisés sobre a Terra Prometida a partir do Monte Nebo, é o local onde Jesus Cristo foi baptizado, é um dos berços da civilização nas margens do rio Jordão, é o Mar Morto que jaze a mais de 400 metros abaixo do nível do mar, são os mosaicos bizantinos das igrejas de Madaba, é o impressionante pôr-do-sol a partir da pequena aldeia histórica de Dana! E são estes os meus maiores interesses quando viajo: os locais, as pessoas, os momentos, os rituais que não se dão a conhecer, mas que se nos revelam quando menos esperamos!

Muitos foram os momentos marcantes, muitos quilómetros desde a cidade greco-romana de Jerash, a norte, até ao Mar Vermelho, no sul, calcorreando castelos como o de Aljoun, Shoubak ou Karak. Descendo e subindo vales tão grandes que não cabiam nesta página, como o de Wadi Mujib, que rasga a terra em dois e obriga a engenharia a um serpentear de alcatrão, natureza acima.

O já comum banho nas águas de um dos mares mais salgados do mundo, elemento estéril no fim do vale do Rift que se estende desde o continente africano, que nos surpreende por conseguirmos, até, cruzar as pernas enquanto boiamos e a cascata mesmo ao lado, que corre ainda quente das profundidades da terra e, à volta, tanto lixo, mas tanto lixo que nos faz perceber que aquele lugar é só dos locais e que nunca foi limpo, já que não é parte do circuito turístico, que fica uns quilómetros atrás, em resorts que nos cobram 30€ por uma experiência que ali, temos de forma gratuita!

Bedúino, no deserto de Wadi Rum, na Jordânia – ©Pedro Costa

São as palavras sinceras dos beduínos, tribos que outrora habitavam as areias dos desertos da península arábica e que tentam sobreviver à mudança, ainda cavalgando ou subindo encosta acima nas suas mulas, mas que trazem já no bolso a última versão do android mais potente.

Nas as maiores revelações desta aventura, são aquelas que me aparecem por mero acaso e que são suficientes para me fazerem voltar e podem ser tão pequenas, quanto marcantes! Uma delas, a pequena aldeia de Dana, encalhada na montanha com apenas duas famílias que a habitam. A aldeia, por si só, é já motivo suficiente para uma visita, mas é nas caminhadas que se podem fazer à sua volta, que a beleza e a dimensão da natureza ganha espaço em nós! Os vales, a vida dos pastores que ainda tocam a sua flauta enquanto vagueiam com o seu rebanho, o rio seco que já foi água, lá ao fundo e a nascente que corre de maneira constante, cá em cima.

É o pôr-do-sol que acontece exactamente no rasgar destas duas montanhas, que nos proporciona ao longe, uma vista espectacular sobre Wadi Araba, o deserto que se estende até à Palestina, Israel e Egipto. É a cooperativa que gere o Dana Hotel, a primeira unidade hoteleira da aldeia e que com o dinheiro ganho, tenta reavivar a cultura da aldeia, desenvolver infraestruturas que atraiam mais pessoas e construir escolas e dar formação aos habitantes de Dana e que, mesmo assim, não perde o seu
lado mais puro: a hospitalidade!

 Dana, a aldeia histórica com apenas duas famílias, autêntica jóia escondida - ©Pedro Costa

Dana, a aldeia histórica com apenas duas famílias, autêntica jóia escondida – ©Pedro Costa

Mais a norte e por outro mero acaso e já depois de um dia inteiro passado nas ruas de Madaba, talvez a cidade mais cool do país, visitando o seu parque arqueológico e todas as igrejas e calçadas romanas, e a imensidão de mosaicos bizantinos que fazem de Madaba um local obrigatório, eis que a chuva nos faz espreitar por uma porta feita de plástico um local que me pareceu, visto de fora, completamente fora da caixa naquele lugar. Ao entrar, a sensação foi, mais do que de pasmar, de prazer! Tinha acabado de descobrir a primeira livrara de Madaba, aberta apenas há um ano por um jovem apaixonado pela literatura, que havia deixado a sua carreira financeira para pegar nos poucos livros que tinha e começar a vendê-los nas ruas!

“Dou graças a Deus todos os dias, por o meu país não ter petróleo!”
— Mohammed
Depois disso, recuperou um Mercedes de 1974 e os mesmos livros, eram vendidos em cima do mesmo, que estacionava tanto numa ruela, como até dentro de um café, se existisse espaço para isso! E o projecto a que chamou Books on the Road, ganhou dimensão e a livraria Kawon, ganhou forma! O Ghaith, o sonhador barbudo com alma de viajante, comprou finalmente um pequeno buraco com mais de 150 anos na parte histórica da cidade e ali deu asas ao seu maior desejo! É, mais do que uma livraria, diz-nos com orgulho, um projecto social.

Um abrir de mentalidades com música, livros – pois claro – postais e mapas antigos, mas também recordações que trouxe do Irão e da Turquia e até um livro com mais de 70 anos que ensina às meninas como ser um bom “exemplo” de mulher e que, obrigatoriamente, lhe comprei! Uma relíquia desta não poderia ficar para trás! Por ali se bebe chá, café e se conversa. Não existe wifi e por isso, as palavras acabam por sair naturalmente! Era já noite quando saímos, com um aperto de mão forte e a promessa de um regresso, pois como diz o povo jordano: Chega como convidado, sai como um amigo!

Ghaith, na sua livraria em Madaba, a Kawon - ©Pedro Costa

Ghaith, na sua livraria em Madaba, a Kawon – ©Pedro Costa

Texto: Rafael Polónia.
Fotografia de capa: Pedro Costa

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