No dia em que esse tipo formidável que é o revolucionário Francisco aterra em Portugal, Fátima e redondezas enchem-se de fiéis para testemunhar a visita do peregrino que governa o Vaticano. Sendo eu um fiel convicto das leis irrefutáveis da ciência, obviamente não engulo metáforas líricas como verdades absolutas. O criacionismo é uma valente treta, a mitologia em torno do nascimento de Cristo mais não é do que uma adaptação do nascimento de dezenas de Messias de religiões pagãs, muito anteriores ao Cristianismo, e as aparições na Cova da Iria, lamento a frieza, são muito pouco credíveis.

 © Hiram Henriquez illustration (The Miami Herald/MCT via Getty Images)

Claro que, numa sociedade livre e democrática, cada um é livre de acreditar naquilo que quiser, seja no Paraíso eterno, seja no harém com 40 virgens, seja que as pirâmides de Chichen Itza foram construídas com recurso a tecnologia alienígena. Aprendi a respeitar quem acredita nestas coisas, que, por disparatadas que possam a alguns parecer, sempre são mais respeitáveis do que a crença em modelos económicos predatórios que garantem a exploração do mais fraco pelo mais forte. E os valores de paz, união, tolerância e amor, apenas para citar alguns daqueles que acompanham os ensinamentos que tantos cristãos preferem ignorar, são valores nobres que a todos deviam vincular, crentes ou não.

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Porém, nestes dias que antecederam a chegada do Papa, a hipocrisia tem estado em forte alta. Corruptos e traficantes de influências, ilusionistas e manipuladores profissionais tem inundado as redes sociais com a sua fé inabalável, falando de paz, amor e devoção, apesar de não hesitarem em pisar, enganar e aproveitar-se de terceiros, todos os dias, para a prossecução dos seus objectivos pessoais e políticos, dispostos a quase tudo pela conquista do poder. E tudo isto me coloca perante uma dúvida existencial: se Deus existe, qual será a sua opinião sobre estes falsos devotos, para quem o cristianismo é um mero instrumento de manipulação e manutenção de aparências, que se arrastam até Fátima para vomitar a sua falsa fé, quando lá dentro mais não têm do que ódio, ambição sádica e total disponibilidade para não olhar a meios para atingir fins? Haverá salvação para eles?

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João Mendes

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