Parti em direcção à América Latina e percorri 14 países, neste périplo a que dei o nome de Follow the Sun!
A razão? Seguir o verão de Norte a Sul do continente!
De todos os países, a Guatemala foi o que mais me ficou entranhado na pele.
As razões, são óbvias!

Viajei durante um ano pela América Latina! Cruzei 14 países, conheci centenas de pessoas, vivi milhares de experiências e a Guatemala, é o pais que não me sai da cabeça. O significado de Guatemala, numa das línguas locais, é ‘terra das árvores’. Para mim, Guatemala significa vida selvagem, imponentes vulcões, lagoas de cortar a respiração, céus de milhões de estrelas e claro muitas e muitas árvores! Guatemala é também conhecida como a terra da eterna Primavera, o pináculo da beleza natural do nosso planeta. Para além de tudo isto, é também um lugar misterioso, que transborda cultura e história, pois é a terra ancestral dos Maias, uma das civilizações mais impressionantes e mais desenvolvidas do seu tempo. Aqui, escondidas na selva densa, as antigas pirâmides Maia permanecem intocadas pelo passar dos séculos, transportando-nos para o um passado longínquo, onde a viagem é tão grande quanto a imaginação de cada um.

“Mais impossível ainda é descrever a minha noite passada às claras, a olhar para o céu brilhante, cheio de estrelas, a ouvir os macacos uivadores, em cima no Templo II na praça principal de Tikal, (…)”
A minha viagem à Guatemala começou na antiga capital, Antigua, que após ter sofrido vários sismos devastadores, deixou de ser o “centro” do país para um lugar mais seguro: a Cidade da Guatemala, actual capital. Deixada ao esquecimento durante vários anos, esta pequena jóia de arquitectura colonial está agora, aos poucos e poucos, a ganhar novamente o seu brilho. Não há um dia igual ao outro em Antigua, uma rua igual à outra, café igual ao outro e até os autocarros, conhecidos como ‘chicken bus’, são personalizados. É, sem dúvida, uma cidade única. Muitos dos edifícios foram recuperados, mas muitos continuam parcialmente em ruínas e em muitas das igrejas só a fachada permanece intacta, como uma recordação do poder que as ordens religiosas tiveram naquele lugar. Não são ruínas de desleixo, são ruínas de respeito, respeito pela força destrutiva da natureza e pela história daquele povo.

Antigua é o ponto de partida para uma experiência retirada do imaginário dos mais aventureiros. A uns quilómetros fica a base do vulcão Acatenango. Da base até ao topo são 5 horas quase sempre a subir, e as poucas partes planas são essenciais para nos lembrarmos de apreciar a vista única do lugar onde estamos. Porém, apesar da beleza do vulcão Acatenango, a verdadeira razão para que todos o sobem – os que se atrevem claro – é por aquilo que vemos no topo: o vulcão Fuego. Como o próprio nome indica, este vulcão está em erupção constante há muitos séculos, sendo um dos mais activos do mundo. A noite é passada numa tenda, com vista para o espectáculo que nos proporciona o Fuego, mais ou menos mal-humorado, mais ou menos vistoso e colorido. A verdade é que é um vulcão vaidoso, que se gosta de mostrar, mas só àqueles que têm coragem de assumir este desafio.

No Acatenango com vista para o Vulcão Fuego © Direitos Reservados

De Antigua até Semuc Champey é um dia de viagem. Semuc Champey significa “onde o rio se esconde na montanha”, e é um conjunto de 7 lagoas de cor verde turquesa, no meio de um bosque tropical. Há pouco que possa dizer sobre Semuc, mas o que não me canso de dizer é que é um daqueles poucos lugares no mundo onde nem as mais bonitas fotografias dos melhores fotógrafos conseguem representar a beleza, a cor e a magia que é lá estar. É um lugar de olhares carinhosos, curiosos e simpáticos, de pessoas muito pouco habituadas a ver caras diferentes das deles, onde as antigas tradições e lendas Maia são tão reais como eram antes dos espanhóis lá chegarem.

Semuc Champey © Direitos Reservados

Quando os espanhóis chegaram à Guatemala depararam-se com cidades enormes abandonadas e engolidas pela selva, algumas delas há mais de 1000 anos. Umas delas, talvez a maior e mais importante no seu tempo, é Tikal. Visitar Tikal é um privilégio, é impressionante como é que uma civilização sem acesso a ferramentas de metal e sem a roda, conseguiu elevar pirâmides e templos tão acima da copa das maiores árvores. Hoje em dia o complexo arqueológico tem mais de 10 km2, mas acredita-se que o que se encontra a descoberto é muito menos de metade daquilo que um dia foi Tikal.

“(…) a pensar que seria dos poucos na história da humanidade que tinham tido o privilégio de passar a noite naquele lugar, cheio de significado e de energia!”
Para desfrutar ao máximo desta experiência, poder ver o nascer e pôr do sol na cidade Maia, decidi ficar a acampar no parque de campismo à entrada do complexo arqueológico. Nem eu imaginava o que ia acontecer a seguir! Em conversa com o zelador do parque, um senhor baixinho, gordinho e muito simpático -o típico Maia– percebi que, se quisesse dar uma contribuição monetária -chamemos-lhe assim- podia entrar nas ruínas durante a noite e ficar lá a dormir. A realidade é que já tinha lido em vários blogs que antigamente, quando o controlo era outro, se podia fazer isto, mas que agora não acontecia. É impossível descrever por palavras o que senti naquele momento: algum receio, por estarmos a fazer uma coisa que sabia não ser propriamente legal e por estarmos literalmente no meio da selva, mas muito mais entusiasmo e ansiedade porque estar prestes a fazer algo que sabia ser único. Mais impossível ainda é descrever a minha noite passada às claras, a olhar para o céu brilhante, cheio de estrelas, a ouvir os macacos uivadores, em cima no Templo II na praça principal de Tikal, a pensar que seria dos poucos da história da humanidade -talvez eu e a Tamára os únicos Portugueses- que tinham tido o privilégio de passar a noite naquele lugar, cheio de significado e de energia! O sol chegou, a selva acordou e assim se passou a noite mais incrível da minha vida.

Sem aviso, a Guatemala entrou no meu coração, e espero que um dia, também nos vossos.

Tikal, praça principal, templo II esquerda e templo I direita © Direitos Reservados

Texto: João Amorim.
Fotografia de capa: Vulcão Acatenango © Direitos Reservados

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