A cinza dos olhares escurece o ambiente à volta dos que esperam, emoldurados pela brancura dos médicos em seus hábitos. Estes abomináveis restos de pele e placenta, insectos e anjos de asas matizadas com partículas de nácar, lápis-lazúli e esmeraldas.

Em contraste nítido com o cinzento azul cerúleo dos olhares que nublam os eventos e dão sombra aos momentos. E pelo meio tantas metades, tantas soluções parcas e umas tantas unhas porcas. Um vento solar arrasta poeira cósmica e varre pétalas de girassol… ao fundo, longe, quase invisíveis, os vestidinhos brancos e solenes, tremulam.

Deitam no ar o cheiro das virgens e das viúvas. Meu pensamento tem a cor daqueles vestidos e o sol imprime nódoas à pele e aos tecidos. Endurece o cimento do desejo. Ilumina os músculos húmidos dos trabalhadores da construção civil… e o Carnaval acontece em mim.

À minha volta giram, como cata-ventos, puros, os homens com seus vestidinhos de primeira comunhão. Giram no ar como libélulas nacaradas, os homens montados em seus cavalos-marinhos, nus de seus preconceitos, com os seus vestidinhos em cor de girafa. Leves, elegantes, peremptórios, ígneos e discretos como as girafas.

Os homens imaculados transformam-se em meninas-girafas com suas malhas castanhas e pernas de bailarinas. As girafas passam por mim com suas crinas em chamas, em fila indiana, como os guindastes do cais do porto.

As girafas, os homens e os girassóis fundem-se num único bloco amarelo, como um contentor metálico (ventre de santa) no porão de um navio, num cais perdido numa das ilhas da Oceânia. As girafas devoram os girassóis e depois transformam-se em cata-ventos… Abertura majestosa em sol maior para pífaros e tímbales, Rá Tá Tá Tá… e voz, em crescendo, e vozes de girafas em coro, caracóis em coro, alforrecas e nenúfares e arrufos de musgos a crescer nas pedras e moscas, sempre as moscas, muitas moscas a dançar à volta das carcaças.

Girafas

Girafas

As alforrecas gritam, não têm voz… mas gritam, com seus agudíssimos sons eléctricos e suas agulhas subcutâneas. São diferentes das girafas, apesar de terem todas pernas muito longas, apesar de as girafas não serem submarinas.

A girafa não fala, pois tem o pescoço tão longo, que quando a voz vem a subir os sete degraus de tais vértebras, a pensar, questiona-se: – “valerá tanto seco esforço?” E assim volta, a escorregar, para o silêncio de tão charmoso dorso.

Girassóis

Girassóis

Há quem acredite ter visto a girafa a comer estrelas com sua língua comprida a enrolar-se no firmamento. Mas mesmo ao considerar-se o tamanho de seu pescoço tal afirmativa pode não ter qualquer base ou fundamento. As alforrecas passam de comboio pelas terras todas, a ver as girafas que pastam, mudas, mas gritam com suas bocas cheias de erva e flores de acácia. As línguas cobertas de espinhos e gaias, no mesmo bilhete incluídos os idos de Maio, as maias etc.

Bilhete picado, bilhete válido! As girafas não vêm no comboio porque não há lugar para seus pescoços; nem clarabóia, para que pudessem viajar com as cabeças de fora. Razão mais que suficiente para que as girafas só paguem meio bilhete, apesar de não usarem os transportes ferroviários. As girafas preferem as longas e solitárias caminhadas, assim podem lançar um olhar superior sobre todas as coisas, as girafas são uns seres muito analíticos, apesar das manchas.

As girafas moravam na Lua, antes de vir morar connosco, e comiam estrelas, por isso têm as línguas tão pretas, queimadas… Perderam a voz às custas das estrelas lhes terem secado as cordas vocais. Na Lua eram todas contraltos e foram obrigadas a desenvolver uns pescoços longuíssimos, para dar tempo às estrelas, que engoliam, de arrefecer e não lhes cozinhar as tripas… Assim, ficaram famosas as tripas à moda; não as nossas… do Porto! Mas, as tripas “de girafa” à moda “da Lua”, com grão, com pão, e agora também com acácias.

As girafas vieram de outro planeta para nos ensinar que não há vida em outros planetas. Aquelas coisas que movem-se ao fundo, contra o fundo pastoso, ao som dos batuques, numa percussão profunda em procissão…

Cata-Ventos

Cata-Ventos

Foto de capa: Les Ballets Trockadero 

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PAR

Sou muitos por cento H2O o que quer dizer que fervo a 100 e congelo a zero... tenho muito para dizer mas só digo quando quero.

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... deves estar entre as casas dos 30 e dos 50.