Cruzei-me com os Ghost Hunt na última edição do Indie Music Fest. Trazia boas referências e o pouco que tinha escutado levava-me a querer assistir ao concerto com o ouvido atento. Ao fim da 1ª música, as dúvidas dissipavam-se e no final da sessão tinha a certeza que estava perante um dos mais satisfatórios projectos da música nacional dos últimos largos anos. Claro que o gosto pessoal é aqui um ponto importante e o som de Ghost Hunt percorre e sulca ingerências que são claramente as minhas. Oiço neles reflexos de Kraftwerk a Primal Scream, de Joy Division a Death in Vegas, de Sonic Youth a Manchester, do Krautrock ao Shoegaze, tudo isto temperado com modernidade e individualidade, condimento crucial neste cozinhado e que lhe dá o toque distintivo.
Ghost Hunt é um complexo mix de todo um conjunto de influências, nitidamente assumidas, mas que resultam numa construção caracteristica e personalizada. Arrisco escrever que são ambiciosos nessa hibridização e que as suas propriedades sonoras podem estar limitadas caso não passem as fronteiras do território português. Este é um projecto que podia perfeitamente surgir noutras latitudes e longitudes, nada na sua música nos leva a acreditar que andam a criar camadas de som entre Coimbra e Lisboa. Não que isto seja um elogio per se e sim apenas uma constatação de quem assiste – orgulhosamente – a dezenas de concertos de projectos e bandas made in Portugal.
Inevitavelmente procurei-os no final desse concerto e numa conversa completamente descomprometida fiquei logo a entender que gostaria de fazer alguma coisa com estes Ghost Hunt, nem que fosse uma simples entrevista para os conhecer melhor…

foto por Luís de Lacerda

foto por Luís de Lacerda

Irreversível – Como surgem os Ghost Hunt?
Pedro Chau  Surgem de uma vontade de querer fazer música diferente da que fizemos antes e sem compromissos. Eu e o Pedro Oliveira, que fomos colegas no Liceu em Coimbra, encontramo-nos uma noite em Lisboa. A partir desse encontro surgiu  a possibilidade de tocarmos juntos, o que algum tempo depois veio a acontecer. Foi no bairro da Graça, onde o Pedro reside, que surgiram as primeiras ideias, ensaios, demos, etc. Como não posso ir a Lisboa muitas vezes, muita da nossa comunicação é feita online.

Irreversível – O que querem dizer especificamente com a expressão “sem compromissos”?
Pedro Chau – Sem compromissos ao nível da criação musical. As músicas nem sempre são tocadas da mesma maneira.

Irreversível – Essa liberdade criativa é o mote para Ghost Hunt? Como vamos ver isso reflectido no disco que está prestes a sair?
Pedro Chau – Sim, pode ser, mas não costumamos pensar muito nisso. As músicas ou as ideias surgem de uma forma natural. A música exprime as nossas influências e também o que nos vai na alma. Mas, voltando à questão, essa liberdade criativa espero que se note sempre nas nossas músicas. Esta gravação foi apenas uma experiência, necessidade de registar aquilo que em 2015 andámos a tocar. Somos um projecto que ultimamente se tem focado mais nos concertos ao vivo… Isto quer dizer que em 2016 já temos andado a trabalhar músicas novas, o facto do disco ter demorado quase uma ano para ser editado fez com que o próprio se desactualizasse um pouco em relação ao nosso presente… Alguns dos temas já não são tocados como no disco. Segundo o nosso ponto de vista, foram melhorados.

foto por Hugo Adelino

Irreversível – Essas influências que falam são somente musicais, ou é uma soma das vossas experiências pessoais na música… Ou, de outra forma, as influências de Ghost Hunt vão para além da música?
Pedro Chau – Eu acho que as nossas experiências pessoais na música estiveram sempre relacionadas com as nossas influências musicais.  No meu caso, o gosto musical sempre foi uma espécie de guia para mim. Os caminhos que tenho vindo a atravessar a vida, devem-se bastante a isso.
Essa influência não só parte do lado auditivo como também resulta de informação que vamos lendo – livros, revistas, documentários, entrevistas – acerca de gente que admiramos ou pessoas que vamos conhecendo. Aproveito para dizer que o Pedro Oliveira, para além da música, tem também uma paixão por filmes de Terror e Ficção Científica.
Pedro Oliveira – Em relação a esta parte da entrevista julgo que o Pedro Chau já disse o essencial. De qualquer forma, posso acresentar que Ghost Hunt nasceu também de uma necessidade que ambos tínhamos de nos exprimirmos através da música de uma forma diferente do que tínhamos feito até então. A nossa ideia inicial foi criar algo diferente a partir das influências de cada um de nós, algumas em comum, outras mais pessoais. Essas influências eram musicais e não só, incluem também o imaginário da literatura de ficção científica (William Gibson, Philip K. Dick) e do cinema de ficção científica e terror, como o Chau já referiu. Por outro lado, há também uma forte componente de expressão pessoal. A nossa música é inseparável da nossa experiência enquanto seres humanos e um dos maiores desafios para nós foi traduzir isso através de música maioritariamente instrumental.
Queríamos também fazer música com uma forte componente electrónica mas fugindo às características habituais da música electrónica. Não queríamos, por exemplo, que os nossos temas fossem um projecto num qualquer DAW, a nossa música existe apenas no momento em que é tocada, como acontece com qualquer banda de guitarras.
O facto de usarmos algum aparato de maquinaria tem apenas a ver com isso e não valorizamos muito aquele aspecto do equipamento que utilizamos. Basicamente, tocamos com aquilo que temos. Não sentimos qualquer necessidade de trabalhar, por exemplo, com equipamento vintage ou totalmente analógico. Usamos o que temos à mão e, aliás, o nosso setup já mudou bastantes vezes desde que começámos e, provavelmente, vai continuar a ser assim.
… Basicamente o que queremos é ter oportunidade de tocar e mostrar aquilo que vamos fazendo, foi esse o espírito desde o início.

Irreversível – Assisti a alguns concertos vossos (Indie Music Fest, DBandada e Braga Music Week), curiosamente encontrei um padrão – começam a tocar para uma plateia despida e acabaram sempre com bastante gente a assistir. O que vos transmite isto enquanto banda/projecto?
Pedro Chau – Significa que há pessoas que são cativadas pela nossa música de forma directa, sem qualquer marketing ou forma de promoção. Um caso em que a música fala por si mesma. Isso transmite-nos um óptimo feedback e faz-nos acreditar ainda mais no que estamos a fazer…
Pedro Oliveira – Sim, isso tem acontecido, felizmente. O facto de tocarmos muito em contextos mais de rock, se calhar, também ajuda, porque as pessoas não estão tão habituadas a ver uma banda neste formato e isso desperta alguma curiosidade.

Irreversível – Perante o cenário musical nacional, pensam no projecto para um contexto internacional? Existe alguma ideia nesse sentido ou nem pensaram nisso e “só querem é tocar”?
Pedro Chau – Faz agora muito pouco tempo que uma pessoa nossa conhecida nos propôs o agenciamento de uma pequena tour na Europa para 2017. Nós ficámos muito entusiasmados com a ideia. Agora é esperar que as condições necessárias para isso se reúnam.
Pedro Oliveira – Sim. É algo que nos interessa, claro, mas nunca fizemos planos concretos nesse sentido.

Irreversível – O que é Irreversível?
Pedro Chau – É irreversível olhar para o mundo de forma diferente daquela com que olhava há vinte anos.
Pedro Oliveira – Não é de resposta fácil. Para mim, irreversível é trairmos os nossos princípios, por uma vez que seja.

Os Ghost Hunt lançam as suas primeiras músicas em formato de mini álbum dia 7 de novembro e vão andar a apresentar o disco:
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*foto de capa por Luís de Lacerda

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Francisco Barros

- Realizador e locutor radiofónico nos 90´s com "Rockodromo" & Outros
- Proprietário da extinta "Crash-Discos".
- Vocalista em "Model".
- Passador de música e performer em "Robotic Sessions".
- Musico experimental & Ocasional
- Colaborador e Ex-colaborador em diversas publicações nacionais e locais.

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