Digam-me se eu não tenho razão:
FranchesinaTodos nós já tivemos aquele momento do: “Ai. Apetecia-me mesmo uma francesinha“. De repente assalta-nos uma terrível sensação ardente de desejo, imediatamente interrompida pelo desconsolo. Geralmente quando manifestamos o desejo por francesinha, é sinal que não vamos comer francesinha.

Mas o pior está longe de ser isto. O pior é que quando se fala em francesinha, todos os seres humanos, LITERALMENTE TODOS OS SERES HUMANOS, têm uma opinião sobre “o melhor sítio para comer francesinhas“.
Nós somos capazes de não saber indicar o hospital mais próximo a um tipo que chegue ao pé de nós com a cabeça rachada e o ferimento de uma bala no abdómen:
– “Epá, oh amigo, realmente você está todo fodido! Olhe deixe cá ver, hmmmm, hospital mais próximo … olhe deixe-me ver …. espere aí que eu vou aqui ao Google que é mais rápido. Só mais um bocadinho que está a abrir … espere aí … eish. Olhe, afinal não tenho dados, esqueci-me de carregar o telemóvel“.
No entanto, se o mesmo gajo, com os mesmos ferimentos, nos pedir informações para uma casa de francesinhas, foda-se, ai menino, agarrai-me ‘cause im about to drop some knowledge on yo ass’. É como se o Trip Advisor estivesse integrado no nosso corpo:
-” Francesinhas ? Mas gosta de picante, menos picante ? A4c8e77ae9a5c12c5bf34c3c58ff18734 10 euros, prefere pagar mais e ela vem com ovo ? Não quer experimentar com aqueles 4 camarõezinhos pequeninos e paga mais 2,5€ porque camarão é marisco ? E vegatariana, hein ? Não tem nenhum coelho na família ? Prefere uma de 30 cm ou de 23 ? E o tipo do bife ? Não quer provar o de vitela ?”

Mas o cúmulo, que para mim é o mais revoltante que me podem fazer, é dizer que o melhor sítio para comer francesinhas é no caralho mais velho, num local onde nunca nenhum ser humano ouviu falar na história dos seres humanos. Todos nós temos esse amigo:
– “O quê ? Santiago ? Tás tolo, mano! Ouve, juro-te, a melhor francesinha que eu já comi foi uma em Macieira de Rates, em Barcelos. Oh filho, esquece. Até te borravas com aquela francesinha! E aquilo nem é muito difícil de encontrar: metes-te pa quem vai pa Braga, sais pa Barcelos, depois quando vires o primeiro Continente estás a uns 20 minutinhos. Mas faz-se bem. Não vás é sem reservar com antecedência, porque aquilo é um tascozinho pequeno e está sempre cheio. O tasco é em frente a um pinheiro que está meio torto para a esquerda, mas quando passares o Continente liga-me que eu indico-te o caminho“.
Não. Eu não vou pa Barcelos. Nem pa Braga. Nem pa Aveiro. Até pa Gaia penso duas vezes. Só deve ir a Barcelos quem é de Barcelos, a Braga quem é de Braga, a Aveiro quem é de Aveiro, e quem é de Gaia devia ir ao Porto porque é mais bonito.

img_francesinha_a_moda_do_porto_2083_paso_2_600Este fenómeno é algo que me ultrapassa. Eu nunca comi uma francesinha que não gostasse. Ok. Já comi piores e melhores (sim, continuo a falar de francesinhas), mas uma comida que é basicamente tosta mista com batatas fritas, molho e salsicha, tem poucas hipóteses de saber mal. A pior francesinha que eu comi, que era a que eu comia na escola, era infinitamente melhor que o melhor peixe cozido que já provei. Porque … é francesinha.
A francesinha é como uma gorda: é quadrada, demora o seu tempo a comer, e nāo merece que a gente se esforce assim muito para comê-la. Se nós formos gente descomplexada e sem a mania das grandezas, qualquer coisa simples nos serve. Porque a gorda não deixa de ser uma mulher, e a francesinha não deixa de ser uma francesinha: vão ser sempre boas.

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Hildebrando Pereira

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