Entretanto, na galáxia das redes sociais, o feed entupiu-se de exéquias virtuais de ocasião, não raras vezes escritas por indivíduos para quem o falecido mais não foi do que aquele cantor gay que foi apanhado numa casa de banho pública em preparos pouco ortodoxos. Mas hoje a comunidade social-tecnológica está de luto pelo que se torna obrigatório aderir à movida.
A partir de hoje, e durante os próximos dias, as rádios serão tomadas pelo mesmo ímpeto hipócrita que este ano permitiu que músicos geniais como David Bowie e Prince voltassem a ter espaço entre os excrementos que pululam nas playlists das rádios reprodutoras de qualquer aborto musical imposto pelas editoras. E não, não estou a falar da Last Christmas, essa sempre aparecia pelo Natal.
Nunca fui grande fã ou conhecedor do trabalho de George Michael, resumindo-se o meu saber aos êxitos obrigatórios e quase impossíveis de não conhecer. Não vou partilhar nenhum tema no Facebook nem me vou mostrar particularmente indignado por ver mais um astro musical partir tão novo. A morte não escolhe idades e não me choca mais ver morrer um George Michael de 53 anos do que um adolescente de 15 numa favela de Nairobi.
Mas há algo que quero dizer sobre George Michael, algo que, infelizmente, é cada vez mais raro entre a nova escola de músicos dos circuitos mainstream, que noutros tempos melhor souberam usar o seu protagonismo e exposição mediática, e que hoje se vão transformando em fantoches sem opinião. Goste-se ou não da sua música, George Michael foi um homem corajoso e determinado, que assumiu a sua homossexualidade num tempo em que tal anúncio requeria ter os tomates no sítio, que integrou inúmeros projectos solidários, em particular pela erradicação da pobreza e da fome, tendo gerado milhões para um grande número de causas nobres, e que se posicionou contra a aliança terrorista que invadiu o Iraque em 2003, tendo sido fortemente crítico da administração Bush e daquela que considerou ser uma relação de vassalagem do Reino Unido face aos EUA.

Um dia depois do desaparecimento de mais um grande músico e compositor, daqueles que efectivamente escreveram os sucessos que o celebrizaram ao invés de ser mais um boneco que a indústria penteia, maquia, veste e a quem depois diz o que cantar, importa recordar que 2016 foi um ano em que a música ficou mais pobre. Muito mais pobre. Porque está cada vez mais contaminada por mesmices, banalidades e artificialidade, e porque perder, num só ano, Leonard Cohen, David Bowie, Prince, Leon Russell e George Michael já começa a ser abuso. Devemos-lhes muito. Que descansem em paz.

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João Mendes

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