I – Inverno

Sim, nem todos os dezembros são tão frios como o último pelo qual passámos, em baixo das cobertas a tentar dormir. Tiritar ou te irritar.

foto: pauloramosartistadesenhistapoetafotografo

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Sem ouvir as folhas no farfalhar dos seus outonos ou os pássaros a saltar entre as antenas. Um fim de tarde que nunca mais acaba e a bruma a cobrir as asas dos estorninhos, chilreios, a mancha negra que recobre o sol sem som.

Amarelos, os humores já não nos roçam a pele que estala sob os pés das árvores sem falhas, oxigénio desesperado e fora do alcance dos pulmões, como trutas que escalam cascatas, como os ursos que comem as trutas, e as frutas, como se não houvesse amanhãs e o facto de hibernarem não provocasse inseguranças no vento que parte os galhos com seu uivar.

Vermelhos, os dentes rasgam o sangue das raízes. Matizes inesperados aguarelam a tela das nuvens que clamam por relâmpagos e trovões, tambores dos deuses esquecidos, esboços dos seus próprios feitos heróicos.

II – Caminhos-de-ferro

foto: pauloramosartistadesenhistapoetafotografo

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Todos para ali na estação, à espera, em desespero, por mero acaso ou, se for o caso, chegam a ela com a determinação de partir, os corações apertados, disparatados, apressados, que aportam com suas malas às costas, suas lágrimas suadas num adeus, e aqueles sorrisos sem verbo, das pessoas que esperam, as mão caladas sobre peitos vazios e as línguas secas, coladas aos dentes, gramaticalmente descoordenadas.

A dor congelada nas beiras da plataforma a partir o concreto com seus cristais rádio-activos, a dor pesa nas mãos, bagagem excessiva, tudo está muito acima do permitido. Tudo está irremediavelmente estranho:

As escadas rolantes, os rostos dos fiscais de linha, as agulhas, as linhas cortadas pelas greves dos operadores ferroviários e as rugas, cada vez mais numerosas, profundas, perpétuas, nos olhos das mulheres-a-dias que nos acenam, desmedidas, com as suas vassouras azuis.

III – Rádio

foto: pauloramosartistadesenhistapoetafotografo

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Bendito o rádio e o seu selector de frequências, sequência aritmética incerta, que desperta e grita. Sempre a mesma música, tão batida e tão sem função harmónica, programas anémicos, reportagens, reportagens e nenhum repertório, a música compulsiva do rádio.

Clássicos esqueléticos que trazem um nada, profundo, à memória e o contexto é disparatado, coisas que foram ditas por presidente mentecapto e políticos incorruptíveis a fazer promessas, pastores, astrólogos, psicólogos, todos eles cobertos de razão, cobertos de certezas e chantili.

O rádio está condenado a calar-se perante as evidências. Novas tendências de comportamento, lembranças remotas de uma canção inesquecível de cujo título, agora, não me lembro.

IV – ISS (EEI)

imagem: google

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Depois da terceira ou quarta volta, pelo céu-da-boca dela, os tripulantes da Estação Espacial já estavam entediados até à medula óssea de tanta poeira cósmica e raios ultraviolentos a destroçar meteoritos. As íris eram verdadeiros buracos negros a devorar estrelas, quasares ou anãs brancas. Andrómeda, à espera de seu Perseu, suspensa em suspiros, nos seus intervalos respiratórios, há estrelas que cismam seus desconcertantes brilhos milenares, constelações desconstruídas, atravessadas por cometas que se abrem em caudas de pavões.

Pavores nocturnos, pânico, pânico e perigo que pisca em robôs perdidos numa série televisiva qualquer. Satélites artificiais, fogos de alguns artifícios, solstícios, equinócios que saem pelas tangentes da via-láctea. Fobos, Deimos, Caronte ou Ganimedes em suas rotas oblíquas à volta da já muito velha estrela amarela, que não se cala e faz a eterna pergunta: “Haverá mesmo vida inteligente no planeta Terra?”

V – Desfile

foto: pauloramosartistadesenhistapoetafotografo

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Estacionado em frente ao prédio em que habitas, o carro não é mais um bólide, o coração não bole, o coração permanece parado à espera que venhas à janela e mostres teus olhos que são brilho emprestado. Nada do que se move à tua volta tem a mesma velocidade que a luz que corta teus cabelos, rente à nuca e a tua nuca nunca é um bólide, pois não se move e me comove com sua ausência de raios infravermelhos, teu corpo não é inerte, não está em repouso, teu corpo tem a plena consciência de que põe o meu em movimento e que me faz mover em tentativas centrífugas.

Parado a tentar chamar tua atenção para as tendências da nova estação. Estacado, estanque e estacionado, meu corpo que já foi bólide, repousa, agora inerte, atrás da tua porta, que não abres, que não sabes a que é que sabe. Meu corpo só se compara ao automóvel que dispara sem condutor entre as antenas da cidade abandonada.

O pó a dormir sobre todos os móveis, a ser iluminado pelas frestas, inusitadas, das cortinas contaminadas pelo vento que sopra, inquieto, seus sons, segredos estranhos, roubados às conchas, a madrepérola das palavras, rimas, sussurradas, pelos rodapés em abstracções geométricas como as rosas que se desfazem em atracção gravitacional.

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PAR

Sou muitos por cento H2O o que quer dizer que fervo a 100 e congelo a zero... tenho muito para dizer mas só digo quando quero.

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