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Liliana Correia

Estivemos a conversar com Liliana Correia, uma cidadã do mundo com naturalidade portuguesa, quase a chegar aos 30´s de idade terrestre, que vive actualmente na cidade de Kalamata, capital da região de Messinia na Grécia.

– O que te levou a ir viver para a Grécia?
– Antes de ter a oportunidade de vir para aqui estava a trabalhar em Inglaterra. Trabalho estável, dinheiro garantido no final da semana. Mas dinheiro não é tudo… e surgiu a oportunidade de fazer voluntariado numa área que sempre gostei, num país para onde sempre quis vir. Sempre tive a ideia de que a Grécia era um país muito semelhante a Portugal… e não me enganei; é visível nas pessoas, no país em si, na situação financeira! …até na comida, sinto-me em casa por aqui.

-Tendo tu já vivido em diferentes países, como avalias desse ponto de vista externo a situação actual na Grécia?
– As coisas aqui chegaram a um extremo que nunca vivi em lado nenhum. As caixas multibanco foram invadidas por pessoas desesperadas, com receio de que as suas poupanças lhes fossem tiradas….como resultado disso, actualmente em toda a cidade onde estou, não há notas inferiores a 50 ou 100 euros nos MB. Quem tiver menos na conta, ou planear um levantamento inferior, não o consegue. Além disso, enquanto se aguardava pelo referendo, houve um ‘assalto’ aos supermercados, onde a maioria dos bens essenciais foram comprados com a maior rapidez possível… e, em consequência, também os supermercados deixaram de aceitar cartão como forma de pagamento. Agora a situação melhorou, pelo menos nesse aspecto, mas nas caixas multibanco deixaram de haver filas…simplesmente porque também deixou de haver dinheiro.

– … e do ponto de vista pessoal?
– Pessoalmente não podia estar em melhor sítio do que este para presenciar isto tudo. Como sabes, não sou minimamente interessada em questões financeiras ou políticas (e sim, shame on me porque também me afectam), mas o que se viveu aqui num par de semanas foi…..histórico! Foi impressionante participar em várias manifs e ver como esta gente simplesmente se fartou de baixar as calças e receber o que lhes foi imposto. O ambiente aqui era de indignação completa e total, houve uma grande satisfação por parte do povo em poder dar a conhecer a sua opinião e o que realmente pretendem para o seu futuro.

–  Qual é o olhar mais simples, do grego comum, sobre tudo o que se está a passar?
– Bem… passou pouco mais de uma semana desde o referendo… A Europa acabou de anunciar um possível acordo e neste momento os gregos estão estupefactos com o que se está a passar. Foi um bocado como ter um sentimento de liberdade temporária, que lhes foi tirada com a mesma rapidez que lhes foi dada. Quando o ”não” ganhou o referendo, houve aqui uma sensação de ”finalmente fomos ouvidos, já chega de austeridade, agora sim as coisas vão mudar”. E, logo de seguida, levam com uma chapada europeia de mão bem aberta, uma humilhação politica como eles por aqui dizem, e um acordo que vem piorar ainda mais as coisas… O sentimento geral da população mais nova é de desilusão, e de nenhuma esperança no seu futuro…

foto: huffingtonpost.fr

foto: huffingtonpost.fr

– Os gregos em geral (ou especificamente) acreditam em “teorias da conspiração?
– Completamente, e mais ainda depois deste espectáculo politico que se viu contra o país. Por aqui parece claro a todos que o objectivo da Europa em geral foi de intimidar o país, começando por fechar bancos e limitar as pessoas a um levantamento diário de 60 euros. A seguir veio a promessa de que, sem acordo, os bancos iriam fechar durante ainda mais tempo, o valor diário iria diminuir, o possível ”grexit” os iria deixar a precisar de ajuda humanitária… enfim, foi enorme a tentativa de intimidar as pessoas a votar num ”sim”, e demonstrar à Europa em crise que aqui há democracia, mas que quem controla a democracia não somos nós. Mas os Gregos como povo espectacular orgulhoso que são, não se rebaixou (e o medo era muito) e acabou por demonstrar numa maioria que ”enough is enough”.
Tudo isto para quê? Para, no fim, vir um acordo onde vão ter de privatizar a companhia de electricidade, vender ruínas e propriedades centenárias para sabe-se lá quem fazer sabe-se lá o quê, reformas nas pensões, entre outras medidas que este povo não consegue mais suportar… foi um jogo duro onde a Grécia ganhou e no fim foi desclassificada porque não tem poder político ou financeiro para levar avante uma medida que, dentro de uns anos, os poderia levar a uma independência que nós, portugueses, só poderíamos invejar.

– O que é Irreversível?
– A vida! Irreversível sem dó nem piedade, cada decisão que fazemos não tem volta atrás… E o que não fazemos também!

Liliana Correia

Liliana Correia

A Liliana deixou uma visão pessoal e em directo da sua vivência na Grécia. Não faremos qualquer tipo de análise ou comentário as suas respostas, pois o essencial e importante é focar no conteúdo das mesmas.

O Irreversível agradece à entrevistada a disponibilidade para ser como que uma correspondente da magazine na Grécia!

 

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Miguel Sousa

Responsável pela agenda Irreversível.

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