O Doutor Estranho era daquelas personagens cujas histórias me aborreciam em miúdo. Nunca fui apreciador do seu universo, dominado pela magia, espiritualismo e demais conceitos abstractos. Era mesmo aquele estranho que se intrometia nos comics da Marvel, alguém cuja dimensão, limite e validade dos seus poderes, pareciam dependentes apenas da vontade dos autores. Quando foi anunciada a sua adaptação para o cinema, incluído no inevitável universo Marvel, não sabia o que esperar. A tarefa parecia ingrata e condenada ao fracasso, em especial devido à ausência da pseudo-ciência que caracteriza os demais personagens.
Afinal, como se vai apresentar alguém que não se movimenta na nossa dimensão, cujas habilidades transcendem os limites da realidade? Mas a esperança renasceu com a apresentação dos primeiros trailers, a majestade dos visuais e a presença de Benedict Cumberbatch no papel do famoso feiticeiro. E de facto, o resultado final é um triunfo improvável.

A estrutura não foge ao habitual, a eterna narrativa em 3 actos, a fórmula mágica do entretenimento mainstream. E não há interesse ou necessidade em modificar a base – poupem-me à hipocrisia da alergia aos “filmes de super-heróis” – porque todo o cinema de aventura assenta nos mesmos pressupostos.
O segredo está na qualidade da abordagem, na caracterização das personagens, na forma como conseguem a empatia com o público, no modo como absorvemos e vivemos as histórias de superação e redenção.
doctor-strange-imageDoutor Estranho” sabe respeitar as suas origens, não se leva demasiado a sério, não tenta insultar a inteligência do espectador com explicações ou pragmatismos factuais. Benedict Cumberbatch apresenta-se aqui com mais uma boa interpretação, repleta de humanidade e com uma postura nobre que dignifica o seu personagem.
O argumento é sólido, com um ritmo quase perfeito a manter a narrativa em velocidade de cruzeiro, simplificando diálogos complexos, pontuados com um agradável e oportuno sentido de humor, bastante competente na exposição das motivações e conjuntura da história.
Pessoalmente, acho que o ambiente de introspecção e renascimento espiritual merecia uma contemplação mais demorada e pura das belas e sugestivas paisagens do Nepal, uns minutos extra de sossego absoluto que consolidariam a metamorfose do personagem principal.
Mas isso é uma opinião pessoal, pois estes filmes devem servir o público em geral, e não satisfazer os gostos particulares.
Outro dos méritos inegáveis deste filme é qualidade dos seus espantosos visuais, muito criativos e ambiciosos, resultam num verdadeiro espectáculo que surpreende, o que não é tarefa fácil nos dias de hoje, com as audiências apáticas, cansadas do bombardeamento dos efeitos digitais.
Será “Doctor Strange” o melhor filme da Marvel Studios?
Na minha opinião, está no topo, ao lado de “Iron Man“, “Guardians Of The Galaxy” ou “Civil War“.
E com o previsível abandono de Robert Downey Jr. após o terceiro filme dos Vingadores, parece-me que teremos em Stephen Strange um dos novos patrões da Marvel para os próximos anos.
Um filme bem conseguido a todos os níveis, e que merece ser visto num ecrã com dimensões e qualidade.
No meu caso, uma projecção no Imax 3D do Mar Shopping, altamente recomendável!

Comentários



Luis Costa

Não mais deixarei intocável a minha divindade.
Ficarei à mercê do tenebroso juízo e assustadora pena, de todos quantos quiserem vislumbrar, porventura explorar, as fraquezas e timidez de um Deus da guerra, cansado de inconscientemente fugir da paz sempre adiada.
De futuro, caminharei ao lado do comum dos mortais.

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