Sábado 13.02.16 a Bizarra Locomotiva passou a todo gás pelo Hard Club, num evento da Quebra Sentidos Associação Cultural.

Foi um concerto surpreendente. Acompanho Bizarra Locomotiva há mais de 20 anos, ao longo deste tempo vi diferentes concertos da banda, em diferentes contextos, em diferentes fases sonoras do seu percurso, e este foi sem dúvida nenhuma o melhor que presenciei. Mas para além disso, e escrevo-o medindo bem as palavras, foi um dos melhores concertos de sempre de Industrial-Rock (vamos chamar-lhe assim) que tive oportunidade de assistir, não ficando rigorosamente nada atrás de qualquer concerto de qualquer das maiores bandas que passam em solo nacional. Mas foi surpreendente… não estava nada à espera confesso, não conhecia esta evolução da banda, ainda não me tinha cruzado com os concertos na sequência do lançamento do último álbum – Mortuário. Os registos gravados ao longo de duas décadas já colocavam os Bizarra Locomotiva na história da música nacional – mesmo que muitas vezes apenas para uma reentrância – e com o respeito de todo o undergroud, mas com prestações destas em palco passam para um patamar superior do cenário, apenas reservado aos melhores. Os Bizarra amadureceram e maturaram para um temperamento e um carácter único, para serem degustados pelo conhecedor experimentado ou descobertos por novas gerações.

Bizarra Locomotiva

Pic by Wooden Eyes Never Lie @ Hard Club

Não gosto e é muito raro fazê-lo, mas tenho de destacar e individualizar a prestação de Rui Sidónio, um front man de um nível altíssimo. Sempre teve uma boa presença e qualidade na função, mas os muitos quilómetros de palco tornaram-no num animal que domina todos os limites da sua jurisdição.

Fiquei ainda surpreendido pela falta de uma sala verdadeiramente a “arder” por parte da audiência, já o concerto ia a meio e sentia a plateia com pouca agitação perante aquilo a que estava a decorrer em palco, foi aí que compreendi que provavelmente a maior parte do pessoal estava como eu… mais do que curtir um concerto, e era tão fácil isso acontecer perante o que se constatava e escutava vindo da ressonante Locomotiva, encontrava-me a admirar e apreciar uma liturgia rock-industrial…

Aproveitei a ocasião e a oportunidade para conversar com Miguel Fonseca, guitarrista da banda:

Bizarra Locomotiva

Pic by Wooden Eyes Never Lie @ Hard Club

– Acompanho os Bizarra Locomotiva desde o seu começo. No entanto nos vossos concertos, e vi vários, parecia sempre que faltava qualquer coisa para a banda passar para um nível superior de qualidade ao vivo que acompanhasse a qualidade dos discos. No último sábado no Hard Club caiu-me o queixo. Tenho visto muitos concertos de, vamos-lhe chamar “industrial”, nos últimos anos e considero o vosso espectáculo ao nível de qualquer banda que visita solo nacional. Sentem isso enquanto banda? A que se deveu este salto qualitativo nas performances em palco?
– Sempre houve uma grande diferença entre a Bizarra Locomotiva ao vivo e a Bizarra Locomotiva em disco. E sempre sentimos isso.
Tanto que o conceito inicial deste nosso novo trabalho “Mortuário” foi o de tentar reproduzir a energia e o ambiente que temos em palco, em disco. Todos os temas foram pensados e escritos para tal.
Incluindo a própria produção, captação, ambientes… não escondemos ruídos de fundo nem limpámos princípios e fins de takes como é habitual em trabalho de estúdio, porque é assim que é feito ao vivo. E por isso toda a produção do disco ficou muito mais orgânica e espontânea. Chegámos a utilizar samples do nosso público inclusive na composição de alguns temas.
De resto, creio que as nossas performances em palco sempre tiveram essa energia desde as primeiras actuações ao vivo. Isso deve-se ao Rui Sidónio que é um front man por excelência e tem o carisma de cativar e mexer com o público. Ninguém fica indiferente à passagem da locomotiva.
De resto o salto qualitativo a que te referes deve-se à coesão que temos como banda de momento. Estamos de facto na nossa melhor fase. E sentimos isso assim que acabámos de gravar este último trabalho.

– O 1º concerto que vi de Bizarra Locomotiva, no Johnny Guitar – Lisboa em 94 ou 95, marcou-me significativamente. Abriu-me janelas para novos conceitos e abordagens. Ao conversar com algumas pessoas no final do vosso concerto no passado sábado, com jovens e menos jovens, referiam-me que sentiam algo de parecido. Passados 20 anos sentem que continuam a influenciar pessoas?
– Como bem referiste, jovens e menos jovens…, tens aí a resposta à tua pergunta. A velha guarda que segue a Bizarra Locomotiva há 23 anos continua a marcar presença nas nossas estações e essas outras gerações mais jovens que têm a oportunidade de se cruzar nos nossos carris acabam também por embarcar na viagem. Isso demonstra que temos algum tipo de influência nas pessoas que nos assistem e temos vindo a juntar um bom número de passageiros ao longo dos anos. E sobretudo que estamos a seguir no bom caminho, caso contrário esta viagem não faria sentido.

Bizarra Locomotiva

Pic by Wooden Eyes Never Lie @ Hard Club

– Nesta estação da vossa viagem ficaram ainda mais negros e densos…
– Isso deve-se ao novo trabalho.
Mortuário acabou por soar mais pesado e mais negro que o próprio Álbum Negro, o nosso disco anterior. Não estávamos à espera que isso acontecesse, mas todos os factores convergiram para tal.
Daí a temática do disco reflectir o que se passa à nossa volta no panorama de intempérie social e económica que nos assola. Vivemos numa espécie de limbo contemporâneo onde estamos privados das nossas liberdades, do nosso futuro, dos nossos sonhos, estamos presos num mortuário onde a morte é tudo menos física. Com Mortuário criámos a nossa ópera industrial que ilustra isso mesmo. Percorre o mais negro e o mais denso que nos vai na alma.

– E nesse espelho onde encaixa o surreal que se sente tão mais presente?
– O surreal sempre esteve presente no imaginário da Bizarra Locomotiva.Os próprios poemas ilustram isso. Tanto que podem ter várias interpretações podendo cada pessoa extrair a sua quando os lê.
E a criação dos temas também passa por um processo surreal onde adoptei um método do Salvador Dali onde ele dormia com uma tela aos pés da cama para assim que acordasse registar o seu sonho. Eu durmo com a guitarra e um gravador aos pés da cama, pois a maior parte das minhas composições surge quando estou no estado hipenagógico, ou seja, quando estou entre o sono leve e o sono profundo. É quando me vêm mais ideias à cabeça, por certo o momento mais criativo do dia para mim…, e tenho vindo a explorar isso conseguindo por vezes compor um tema inteiro com letra inclusive e com noções de produção já muito específicas.
Na “Febre de Ícaro”, “Sudário de Escamas”, “Foges-me em chamas”, “Hecatombe”, “Insulto à Besta”, por exemplo, surgiram todas dessa forma, que claro são depois trabalhadas após o registo inicial. Mas a ideia base surge assim dessa maneira.
Tenho vindo a aperfeiçoar o método ao longo dos anos.

Pic by Wooden Eyes Never Lie @ Hard Club

Pic by Wooden Eyes Never Lie @ Hard Club

– Posso então depreender que a Locomotiva segue por carris entre o real e o surreal?
– Sim, como te disse anteriormente, os poemas da Bizarra Locomotiva são muito subjectivos e podem ter várias interpretações. Cada pessoa pode retirar a sua, podendo ser muito diferentes dependendo de quem as lê. São feitas propositadamente para tal.
Também ajuda o facto de ter sido educado entre uma fonoteca extensa e uma biblioteca rica de grandes clássicos contemporâneos.
Isso lado a lado à industrialização da zona periférica de Lisboa onde habito e onde o Rui Sidónio também habitava criou o ambiente perfeito para o imaginário da Bizarra Locomotiva.
Crescemos entre a indústria pesada de navios, decapagens e indústrias químicas, entre a siderurgia nacional e a fábrica da pólvora. E entre um Karlheinz Stockhausen e uma Lisnave, entre uns Genesis e um Boris Vian, entre um Gyorgy Ligety e um Peter Gabriel, algo de surreal haveria de surgir deste imaginário.

Pic by: Quebra Sentidos Associação Cultural @ Hard Club

– A entrevista segue por um carril surpreendente e tenho de aproveitar enquanto estou na carruagem… Os Bizarra Locomotiva enquadram uma estética global no seu conceito, que está ainda mais presente nessa simbiose entre palco e disco. Quanto de vocês mesmos, quanto de ti, é que está presente?
-Fizemos questão de aproximar essa simbiose entre palco e disco no “Mortuário”, como te referi. Era algo que faltava nos nossos trabalhos. Por certo haverá bandas que fazem questão de separar essas águas, mas no nosso caso sentimos que seria uma mais valia para a banda os nossos registos terem essa componente “live” mais orgânica, pois é essa energia que as pessoas retêm nas nossas actuações.
Quanto ao quanto de nós está presente, este é o nosso trabalho mais colaborativo entre todos os membros da banda. Apesar de desde o “Ódio” todos serem produzidos e compostos por mim, este último “Mortuário” reflecte a coesão que temos de momento como banda.

– Essa componente mais orgânica presente na gravação afasta os Bizarra Locomotiva da generalidade das bandas ditas Industriais da actualidade, e até vos aproxima de conceitos mais rock. É um reflexo das tuas, vossas, influências?
– A Bizarra Locomotiva é uma banda de Rock. Títulos e designações à parte, despindo tudo isso, resume-se tudo a Rock.
As nossas influências são tudo o que nos rodeia ou vivências que percorremos. O facto de ter crescido na margem sul mesmo em frente à Lisnave teve o seu impacto. Retive sempre a presença constante dos ruídos de guindastes e dos sons sub graves dos petroleiros, isto 24 horas por dia…, era o meu embalo desde que nasci. Chegava a ser hipnotizante.
De certo que teve o seu impacto da minha maneira de compor e nas minhas influências.
O Rui Sidónio habitava lado a lado com a fábrica da pólvora onde o ruído de testes de munições era constante…
Tenho vindo a criar uma biblioteca sonora ao longo dos anos, onde a partir de um determinado som ou ambiente captado começo a estruturar e a delinear as composições que geram depois os temas da Bizarra Locomotiva e não só.

Pic - Bizarra Locomotiva

Pic – Bizarra Locomotiva oficial

– … o que ouves e lês hoje em dia? 
– Oiço mais os grandes clássicos dos anos 60, 70 e 90, talvez… Ultimamente a qualidade da música e das novas bandas tem descido numa espiral cada vez mais abismal… É difícil entusiasmar-me por uma banda relativamente recente. Habituei-me a um nível qualitativo que hoje em dia praticamente não existe. A música actual é completamente descartável ou é cópia da cópia da cópia do que já foi feito anteriormente. Feita e dirigida para as massas para consumo rápido.
Seguir as tendências é algo que não me cativa de todo. Nunca sofri do sintoma da ovelha e do rebanho… E reparo que já é raro aparecerem projectos interessantes de qualidade.
Daí refugio-me nos tais clássicos e por vezes descubro raridades que ainda não conhecia e são autênticas jóias, comparativamente com o lixo que se faz hoje.
O último disco mais relevante assim que descobri foi o “Milking the Stars: A Re-Imagining of Last Patrol” dos Monster Magnet.
O último livro que li foi o “Memórias de um anão gnóstico” de David Madsen.

– Durante a entrevista senti que o Miguel Fonseca se transporta para a concepção de Bizarra Locomotiva e muito provavelmente vice-versa. Quem é o Miguel Fonseca fora dos Bizarra Locomotiva, se é que existe essa dicotomia?
– O facto de pertencer aos Bizarra Locomotiva trouxe-me o gosto e o prazer de estar em cima de um palco. Antes disso, com os meus projectos anteriores tinha fobia de palcos e multidões à minha frente. Sou uma pessoa tímida por natureza. Chegava mesmo a ser algo visceral, tendo náuseas e vontade de vomitar quando me via em frente daquela gente toda ao ter as atenções todas em cima de mim. Era um peso que não conseguia suportar. Aprendi a gostar de estar em palco com a Bizarra Locomotiva pois a energia que o Rui Sidónio emana é contagiante e isso ajudou-me a conseguir retirar de mim próprio o prazer de tocar ao vivo e sentir-me à vontade em cima do palco. O facto da prestação da banda de ser algo teatral e de encarnarmos os nossos personagens também ajudou muito. Daí nos preocuparmos muito com o aspecto cénico das actuações e tentarmos proporcionar um bom espectáculo a quem assiste.

– O que é para ti Irreversível?
– Sou fã do filme.
Tenho o dvd oficial que nos extras inclui uma versão completa do filme de trás para a frente. É muito interessante ver a história do outro ponto de vista. E o ambiente surreal do filme e da maneira como foi realizado e filmado são deveras interessantes.
No fundo tem a ver com a linha da vida ser irreversível e por vezes querermos voltar atrás para corrigir os nossos erros mas não podermos.
São as opções e os caminhos que escolhemos percorrer que ditam o futuro.
Resta-nos saber e aprender a viver com isso.

Sou fã da Locomotiva, nitidamente nem sequer tentei esconder isso, não assinei nenhuma espécie código deontológico que me obrigue a ser independente nas minhas considerações, nem sequer a ser objectivo; quando as emoções deixarem de ser o principal cerne do propósito, se isso acabar por acontecer numa intenção neutral e desapaixonada, se o pragmatismo vencer, serei então apenas mais uma fotocópia de uma fotocópia. E não me foco nessas questões de pseudo independência jornalística. Foco-me antes numa casa a arder…
Agradecer aos Bizarra Locomotica, em especial ao Miguel Fonseca, pela disponibilidade para trocar umas palavras comigo para a Irreversível.

Comentários



Francisco Barros

- Realizador e locutor radiofónico nos 90´s com "Rockodromo" & Outros
- Proprietário da extinta "Crash-Discos".
- Vocalista em "Model".
- Passador de música e performer em "Robotic Sessions".
- Musico experimental & Ocasional
- Colaborador e Ex-colaborador em diversas publicações nacionais e locais.

Publicação Anterior

Voltei a comer, beber, fumar e foder.

Proxima Publicação

A Humanidade é “pseudo-coisa”!