Numa casa junto à praia
Um homem tinha como única tarefa
Varrer as folhas que caíam de uma árvore
Algures por ali plantada
O pátio pós-moderno feito em traves de madeira
Ficava todos os dias coberto de folhas
Disseram-lhe que a sua função
Seria apanhar essas folhas
E assim foi
Todos os dias o homem as varria
Em dias de vento
Era vê-lo correr atrás das folhas
Para as apanhar
Como que num acto tresloucado e sagrado
Mais do que uma tarefa
Era uma obrigação moral
Religiosa até
Não deixar nenhuma folha
Naquele pátio
Ele varria
E as folhas caiam
Voltava a varrer
E as folhas sempre a cair
Obviamente que pelo facto de ele as varrer
As folhas não deixariam de obedecer à lei da gravidade
Arrastadas pelas rajadas de vento
O pátio esteve
Está e estará sempre com folhas
E o homem lá estará para as tentar apanhar
Desesperadamente
Inutilmente
As folhas apenas caiem
É da sua própria natureza
Digamos que é a sua função
No entanto para o homem
Na sua acção frustrada de as tentar apanhar
Não compreende
A sua acção
É anti-natura e muito menos obrigatória
Embora ele pense o contrário
Contra todo o bom senso-comum
Ele continuará compelido na sua tarefa
E as folhas a cair naturalmente
Desmesuradamente
Continuará assim até ao dia em que um ceda
O homem ou a árvore
Eu diria que o homem já cedeu…

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Miguel Pedro Carvalhais

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